Sobre a fiscalização em Veja e o despertar no SJSP

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Nova Carteira de Trabalho. Foto: Renato Alves (MTE)

Nova Carteira de Trabalho. Foto: Renato Alves (MTE)

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (SJSP ou Jornalistas SP) traz notícia interessante em sua publicação mensal, o Jornal Unidade, edição de março, sobre ataque da revista Veja ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) após fiscalização na sede da editora Abril (que publica Veja), pedida pelo Sindicato. Conforme o texto, a revista publicou uma nota na edição de 20 de fevereiro intitulada “Zero à esquerda” com a seguinte frase: “Qual a importância real do Ministério do Trabalho hoje?”.

Pois eu, uma simples jornalista do interior, respondo aos digníssimos colegas editores e colunistas de Veja que a importância do MTE está justamente em fiscalizar e punir empresas como a editora Abril, que contratam precariamente os colegas como PJ (Pessoa Jurídica) para ampliar seus lucros ou, neste caso, talvez minimizar seus prejuízos, já que os exemplares desta que foi, há um bom tempo, uma boa opção de informação, têm encalhado cada vez mais nas bancas.

Bem, se estiver mesmo no prejuízo, taí um bom motivo para considerar fechar as portas e dar espaço a quem queira fazer bom jornalismo e que respeite os trabalhadores. Caso contrário, se for mesmo só para ampliar os lucros da família Civita, espero que a resposta seja dada pela Justiça, em alto e bom som, que condene esses maus patrões que não cumprem nem mesmo com o básico, que é a contratação pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

Aos colegas jornalistas que trabalham em Veja, assim como a todos os outros que são convencidos ou submetidos por seus patrões (veículos de comunicação e agências) a esse tipo de contratação, sugiro que reflitam sobre as consequências disso, para nós que estamos atuando no mercado neste momento e para as gerações futuras, com a relevante perda de direitos e desvalorização de toda uma categoria.

É preciso ter consciência de que não somos empreendedores, como alguns destes patrões tentam nos convencer. Se assim fosse, abriríamos nossos próprios negócios ou seríamos acionistas da empresa, né?!? Por isso, botem a boca no trombone, denunciem aos sindicatos, ao Ministério Público e ao MTE. Nossos sindicatos têm obrigação de nos representar e até mesmo preservar identidades, se for o caso.

Representação tardia, mas oportuna

Embora em minha opinião tenha demorado mais do que deveria, tudo indica que a direção do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo finalmente denunciou e cobrou com a força necessária do Ministério Público ações de fiscalização contra a “pejotização”, fenômeno que já vem ocorrendo há vários anos no estado de São Paulo e em todo o País e cresceu a passos largos mais recentemente. No Meio, o que se falava até o início do ano passado era que este era um fenômeno inevitável, uma tendência de mercado.

Ah, tá, então deveríamos rasgar a CLT e nos conformar com mais essa desculpa esfarrapada desse Neoliberalismo fracassado? E para que servem os sindicatos, então, se não para representar os trabalhadores na preservação de seus direitos? Certamente, que para oferecer convênios de desconto em bares e hotéis é que não é, ao menos não somente, nem principalmente. “Opa! Quem sou? De onde vim? Para onde vou?” Acho que caiu a ficha…

E nessa cobrança, acredito que a contribuição dos colegas que atuam na oposição dentro do Jornalistas SP tenha sido relevante. Já há algumas eleições consecutivas que a oposição (Chapa 2) chega bem perto de assumir a direção do nosso sindicato aqui em SP e, certamente, o debate em torno da precarização das condições de trabalho, tendo a pejotização como carro chefe, influenciou a direção a rever suas ações ou a falta delas. Fiz parte da Chapa 2 pela Regional Campinas já por duas vezes, em 2006 e em 2012, e me orgulho disso.

Embora não seja uma “sindicalista profissional”, a reflexão e conscientização dos colegas sobre as condições de trabalho e seus direitos sempre me acompanharam nos meus já mais de 15 anos de profissão. E estas últimas eleições foram marcadas pelo amplo debate dessas condições e do que a categoria espera de seu sindicato. A maioria votante decidiu que a direção do Jornalistas SP continuasse nas mãos do mesmo time em que já estava há mais de uma década, mas todos nós, da categoria de jornalistas trabalhadores, amadurecemos.

Transparência

Para finalizar, uma sugestão à direção do Jornalistas SP: que publique no site a relação de todas as empresas denunciadas e fiscalizadas, pois todos queremos e temos o direito de acompanhar este trabalho e, quem sabe, até colaborar para que o combate à pejotização e outras formas de precarização do trabalho sejam combatidas, doa a quem doer, e mais rápido do que espera o nosso presidente, Guto Camargo, que disse: “O combate à pejotização é um processo moroso, mas que precisa ser feito.” (página 3 do Unidade de março/13). Então, vamos à Luta!

Como o jornalista deve lidar com questões de gênero e raça?

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Curso Vozes Pela Igualdade pretende estimular observação, pesquisa e reflexão sobre a cobertura jornalística de questões de raça e gênero

Você, jornalista, já refletiu como pode contribuir para a redução do preconceito e das desigualdades raciais e de gênero através do seu trabalho? Na Redação de um veículo ou agência de Comunicação, em seu blog ou site, em seus perfis nas redes sociais digitais e até mesmo em conversas com familiares e amigos, sabemos que a visão ou a opinião de um jornalista é sempre respeitada, promove reflexão, conscientização e mudanças. E no ambiente de trabalho, já observou se há discriminação com jornalistas negros, mulheres e gays, se eles têm as mesmas oportunidades e salários que os outros?

Pois é. Coloco este assunto em discussão porque, penso, é algo que nunca deve sair da pauta, pelo menos enquanto existirem preconceito e desigualdade, mas especialmente neste ano, declarado Ano Internacional dos Afrodescendentes pela ONU (Organização das Nações Unidas), e neste mês de Novembro, o Mês da Consciência Negra. Por isso, vários eventos com essa temática estão sendo realizados neste ano, a exemplo do Seminário  A Mulher e A Mídia 8 : Mídia, Sexismo e Racismo, uma pauta ainda em questão? (RJ, 29/11 a 01/12) e do curso  Vozes Pela Igualdade (SP, 7 a 25/11).

Como?

Eventos como estes são boas oportunidades para adquirir conhecimento, acessar novas opiniões e ideias, refletir e rever valores que, muitas vezes, reproduzem preconceitos embutidos na sociedade há séculos. Embora o jornalista, quase sempre, não seja dono do veículo de comunicação ou empresa na qual trabalha, tem certo grau de autonomia que pode fazer diferença. É o que defende o jornalista Flávio Carrança, coordenador da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira) do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.

Concordo com ele, já que a abordagem correta dos e das personagens em uma reportagem, a valorização da cobertura de assuntos relacionados, como as políticas públicas e privadas criadas para reduzir as desigualdades, são alguns exemplos de como o jornalista pode colaborar com algo tão importante para toda a sociedade. Além disso, pode ajudar sugerindo e participando da inserção de políticas que promovam a igualdade de condições entre os colegas de trabalho.

“A Imprensa é fundamental para promover a mudança de conceitos e o apoio em massa dos jornalistas seria uma contribuição extremamente positiva. Avalio que o quadro melhorou nos últimos anos, mas ainda não está na Ordem do Dia. Nas escolas de Jornalismo, por exemplo, deveria constar da grade de disciplinas, porque é preciso qualificar os profissionais sobre como tratar adequadamente as questões raciais e de gênero”, considera Carrança.

Imprensa Negra

Importante também para o jornalista conhecer, dentro da história da Imprensa brasileira, a Imprensa Negra, representada pelos primeiros pasquins que colocaram em discussão as desigualdades enfrentadas pelos negros, já em 1833, antes mesmo da libertação dos escravos (Lei Áurea, 1888).  Carrança conta que essas publicações foram motivadas pela diferenciação imposta aos negros (já libertos) em cargos públicos aos quais tinham acesso na época, especialmente na Guarda Nacional, porque não havia brancos em número suficiente para atingir o contingente necessário.

Esses pasquins (O Mulato ou O Homem de Cor, Brasileiro Pardo, O Cabrito e O Lafuente) foram publicados no Rio de Janeiro durante a Regência, em meio a vários outros pasquins que surgiram na época diante das incertezas sobre os novos rumos do País. “Acredito que essas publicações foram circunstanciais. Não houve continuidade. Só vimos movimento similar bem depois”, considera Carrança.

Entre as publicações seguintes, ele cita algumas do final do século XIX, diante das grandes dificuldades enfrentadas pelos negros no mercado de trabalho com a Lei Áurea: A Pátria (SP, 1889); O Homem (PE, 1876); O Exemplo (RS, 1892). E, depois, na primeira metade do século XX, com O Getulino (Campinas-SP, 1923), pelos jornalistas Lino Guedes e Gervásio Moraes; e Clarim da Alvorada (São Paulo, 1924), por José Correa Leite e Jaime Aguiar.

Curso e visita ao Museu

Imprensa Negra- Raízes foi o tema do debate no primeiro dia do curso Vozes Pela Igualdade, 7 de Novembro, realizado pelo Sindicato dos Jornalistas em sua sede, em São Paulo. O curso, gratuito, é destinado a jornalistas e estudantes de Jornalismo, com o objetivo de contribuir para o fim da violência de gênero e raça e para a construção da igualdade e do fim da discriminação, por meio do estímulo à observação, à pesquisa e à reflexão sobre a cobertura jornalística dessa temática.

O projeto é resultado de parceria entre o Sindicato e a Cojira, com apoio e organização do CELACC-ECA/USP (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação). Entre os próximos eventos que integram o curso está uma visita monitorada ao Museu Afro Brasil (vídeo), no próximo domingo, dia 13 de Novembro, entre 14h e 17h. Não é preciso pré-inscrição nem estar no curso para participar da visita, basta comparecer à recepção do Museu (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/no. – Parque Ibirapuera – Portão 10 – São Paulo- SP), às 13h30.

“O Museu Afro Brasil tem um acervo único no País, seja pela quantidade ou diversidade. A visita permite uma aproximação mais qualificada com o tema”, avalia Carrança. Detalhes da programação e outras informações sobre o curso, que vai até 25 de Novembro, no site do Sindicato dos Jornalistas de SP.