Saiba porque livro-reportagem sobre Dilma é leitura obrigatória para jornalistas

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CAPA DO LIVRO "A vida quer é coragem... (Editora Sextante). “Tenho recebido muitos relatos de jornalistas sobre o livro, na maior parte destacando o esforço de fazer um relato objetivo, sem proselitismo, mesmo sem pretender uma imparcialidade abstrata (e, a meu ver, impossível). Nestes relatos, costumam ressaltar a descoberta de uma personalidade política forte, com uma história pessoal coerente e muito rica.”, diz o autor.

Embora com altíssimos índices de popularidade, a presidenta Dilma Rousseff (PT) ainda não é uma unanimidade entre os brasileiros (nenhum político foi ou é, claro), quiçá entre os jornalistas, que carregam consigo o característico ceticismo, especialmente quando se trata de políticos, sabemos. O que chama a atenção, ainda, é o fato de persistirem  em algumas publicações e comentários, até mesmo de jornalistas, visões um tanto quanto distorcidas sobre a trajetória da presidenta, o que em minha opinião revela desconhecimento, no mínimo. Por isso e por tudo que Dilma representa, gostemos ou não, que é necessário conhecê-la melhor, conhecer sobre a vida de alguém que está fazendo história como a  primeira mulher eleita presidenta do Brasil. O livro-reportagem A vida quer é coragem- A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil (Editora Sextante), de autoria do colega Ricardo Amaral, é uma boa oportunidade de avançar nesse conhecimento.

O autor conta que o objetivo foi fazer uma narrativa jornalística sobre a trajetória pessoal e política de Dilma, da infância, em Belo Horizonte, à presidência da República. “Procurei fazer um relato objetivo dos fatos, sem abrir mão de minhas opiniões sobre determinados episódios.”, explica ele. No post anterior, que trouxe a primeira parte da entrevista concedida especialmente ao Blog da Mi, o autor fala de suas experiências profissionais nos seus nada menos que 36 anos de Jornalismo e sobre sua atuação estratégica como assessor de comunicação na campanha de Dilma, em 2010, entre outras abordagens muito interessantes.

Nesta segunda parte, Ricardo Amaral nos dá detalhes sobre a concepção do livro. Achei interessante o fato dele não ter entrevistado Dilma, contou apenas com entrevistas de terceiros, documentos e suas anotações como repórter e assessor. O autor conta, inclusive, como teve acesso à incrível e até então desconhecida fotografia da contracapa: uma imagem de Dilma diante da Primeira Auditoria Militar (RJ), em 1970, depois de ter sido mantida presa por dez meses e submetida a 22 dias de tortura. Confira todos os detalhes, a seguir. Boa leitura!

Quando e por que você decidiu escrever esse livro? Como a presidenta Dilma reagiu à ideia? (pergunta publicada na 1ª parte, agora com a resposta completa)

Ricardo Amaral: O projeto do livro nasceu logo depois das eleições. Achei que era importante fazer um relato jornalístico da eleição da primeira presidenta num país de tradições machistas. Não queria fazer apenas um relato da campanha – o que é habitual em outros países, mas não no Brasil. Queria explicar, especialmente para os mais jovens, os contextos históricos e políticos que permitiram a eleição de Dilma Rousseff como sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva.

Como foi o trabalho de concepção do livro, da ideia inicial à finalização?

R.A.: Para compreender melhor aquele resultado eleitoral, era necessário recuar no tempo: recuperar as experiências da esquerda no Brasil, a luta contra a ditadura, a redemocratização, os novos partidos. Percebi que a história recente do Brasil e a trajetória pessoal da presidenta Dilma se entrelaçam perfeitamente neste enredo, e assim construi o plano da obra. Havia também (ainda existe) uma grande curiosidade em torno da presidenta, que é uma personagem relativamente nova para o grande público.

Apesar da campanha eleitoral, a  imagem da presidenta ainda estava marcada por estereótipos (positivos ou negativos), devido ao desconhecimento amplo sobre sua trajetória política e pessoal. Se há mérito no livro, me parece que é exatamente este: estabelecer uma narrativa jornalística dos contextos históricos que permitiram o sucesso eleitoral de Lula e Dilma no Brasil do terceiro milênio, além de mostrar que a presidenta Dilma teve uma participação significativa neste processo.

Você teve acesso a documentos pessoais da presidenta?

R.A.: Trabalhei com as informações acumuladas ao longo da campanha e na Casa Civil: relatórios, discursos, entrevistas que acompanhei como assessor, as agendas que guardei e as anotações que fiz naquele período. Entrevistei pessoas que foram importantes na campanha eleitoral e no trabalho da Casa Civil, mas não ouvi a presidenta. Ela sabia que eu estava escrevendo o livro mas só foi conhecer o texto depois de publicado. Não se trata, portanto, de uma biografia autorizada, mas de uma reportagem. A personagem principal não é responsável pelas informações nem pelas opiniões do autor.

Para reconstituir sua infância e adolescência em Belo Horizonte, tomei como base um depoimento da própria Dilma, utilizado apenas parcialmente na campanha eleitoral, e procurei pessoas que conviveram com ela em Belo Horizonte: colegas de escola e militância, incluindo o primeiro marido, Cláudio Galeno. O segundo marido, Carlos Araújo, foi fundamental para reconstituir os anos de militância e a vida pessoal e política, depois da prisão, em Porto Alegre.

Devo a ele (Carlos Araújo) a fotografia, hoje famosa, da jovem Dilma diante de um tribunal militar nos anos 1970 (leia mais sobre isso na sequência). Também recorri à bibliografia que temos sobre a esquerda brasileira e a resistência à ditadura: memórias de ex-presos, biografias de militantes e as obras de referência de Marcelo Ridenti, Jacob Gorender e Elio Gaspari, entre outros. Utilizei, por fim, arquivos de jornais e minhas próprias anotações e apurações como repórter nos últimos 25 anos.

Mesmo sendo assessor da protagonista de sua história, você acredita que tenha conseguido manter certa imparcialidade?

R.A.: Procurei fazer um relato objetivo dos fatos, sem abrir mão de minhas opiniões sobre determinados episódios. Não posso teorizar sobre experiências de outros autores, mas não acredito em imparcialidade abstratamente. O que ofereço ao leitor é o meu relato, meu ponto de vista. O leitor fará seu juízo a partir do concreto, do texto.

O livro traz novas informações sobre a trajetória da presidenta?

R.A.: O livro conta a trajetória dela, da infância ao Planalto, de Belo Horizonte a Porto Alegre e Brasília, das organizações de esquerda revolucionária ao PDT e ao PT, do primeiro estágio como estudante de economia à Presidência da República, passando por todos as secretarias de Estado e ministérios que ela ocupou.

Quem é o autor da foto na contracapa? Como a conseguiu? Qual a história dessa foto? 

CONTRACAPA: Foto de Adir Mera retrata Dilma diante da Primeira Auditoria Militar (RJ), em 1970, depois de ter sido mantida presa por dez meses e submetida a 22 dias de tortura

R.A.: A foto da contracapa é um tesouro descoberto pelo pesquisador Vladimir Sacchetta no Arquivo Público de São Paulo, no final de 2010. Foi feita pelo fotógrafo Adir Mera, já falecido, do extinto jornal Última Hora. Ela estava numa pasta na sessão Justiça Militar do arquivo paulista. Retrata a jovem Dilma diante da Primeira Auditoria Militar (Rio) no dia 17 de novembro de 1970. Era a primeira vez que ela comparecia em juízo, dez meses depois de ter sido presa e submetida a 22 dias de tortura. As audiências na Justiça Militar eram abertas à imprensa.

Na mesma pasta havia fotos de Carlos Araújo e do ex-militante Celso Lungaretti, que eram réus no mesmo processo. Sachetta a guardou por quase um ano e, por volta de outubro de 2011, mandou uma cópia para a presidenta Dilma, por meio de assessores dela. Dilma dividiu o tesouro com Carlos Araújo, que me deu a foto e autorizou sua publicação quando o livro estava praticamente fechado. Só depois da publicação do livro conseguimos puxar o fio da história e identificar o autor, pelo testemunho de antigos colegas da Última Hora (a assinatura de Adir Mera no verso da foto foi reconhecida por alguns destes colegas de profissão). É um documento de valor histórico e iconográfico, além da beleza jornalística.

Quais pessoas ilustres já leram o livro e o que acharam?

R.A.: Além de Fidel Castro, a lista de leitores ilustres inclui o ex-presidente de Portugal, Mario Soares, e o líder do Timor Leste, Ramos Horta, que eu saiba. A presidenta Cristina Kirchner citou a foto de Dilma em seu discurso de posse na Argentina e a ex-presidenta do Chile, Michelle Bachelet, também ganhou um exemplar (mas não sei se já leu). Aqui no Brasil, o ex-presidente Lula comentou o livro com amigos e a senadora Marta Suplicy comentou o livro em seu artigo semanal da Folha de S. Paulo.

Por que, em sua opinião, é importante que as pessoas e em especial os jornalistas leiam o livro?

R.A.: Tenho recebido muitos relatos de jornalistas sobre o livro, na maior parte destacando o esforço de fazer um relato objetivo, sem proselitismo, mesmo sem pretender uma imparcialidade abstrata (e, a meu ver, impossível). Nestes relatos, costumam ressaltar a descoberta de uma personalidade política forte, com uma história pessoal coerente e muito rica. Mesmo para aqueles que têm um olhar crítico em relação à presidenta e seu partido, acredito que o livro será útil, exatamente para tentar conhecê-la melhor e compreender o sucesso eleitoral de Lula e Dilma. Para os mais jovens, representa uma oportunidade de conhecer um pouco mais de nossa história recente, de um ponto de vista não muito comum em nossa bibliografia.

Autor de livro sobre presidenta Dilma, em entrevista exclusiva

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“… a eleição do presidente Lula, em 2002, inaugurou um paradoxo: o líder histórico do PT conquistou o poder institucional, mas o aparato cultural e de comunicação da sociedade permaneceu hegemonizado por seus adversários.”, diz Ricardo Amaral, jornalista com 36 anos de profissão e autor do livro ‘A vida quer é coragem. A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil’. Crédito foto: Marina Baldoni

Colega, tenho a honra de publicar no Blog da Mi uma entrevista exclusiva com o jornalista Ricardo Batista Amaral, que já soma nada menos que 36 anos de profissão, com experiências das mais variadas, desde veículos de comunicação da grande imprensa nacional, como Folha, Estadão, Jornal do Brasil e Valor Econômico, e internacional (Agência Reuters), passando pela imprensa sindical e assessoria de imprensa. E foi como integrante da equipe de assessoria de comunicação e imprensa da Casa Civil (entre 2009 e 2010) e, depois, da campanha de Dilma à presidência da República, em 2010, que ele obteve os primeiros subsídios para o livro-reportagem ‘A vida quer é coragem. A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil’ (Editora Sextante).

Lançado em dezembro de 2011, o livro vem sendo divulgado pelo autor nas principais cidades do país, com presenças de personalidades de destaque do jornalismo e da política nacionais. A publicação já conta também com alguns leitores ilustres, como Fidel Castro, o ex-presidente de Portugal, Mario Soares, e o líder do Timor Leste, Ramos Horta. Quando soube do livro sobre Dilma e que tinha sido escrito por um jornalista já fiquei interessada, mais ainda depois de conhecer um pouco do autor, suas experiências diversas e grande vivência como repórter e assessor político.

A entrevista rendeu tanto que, em vez de editar/cortar, decidi dividir em duas, e não privar meus leitores de nenhuma vírgula. Assim, compartilho com você a primeira parte da entrevista, que traz um relato de experiências profissionais do autor, de como ele vê o trabalho do jornalista enquanto assessor de imprensa, suas opiniões sobre poder e influência da grande imprensa e o potencial de mudança desse contexto com o fenômeno das mídias sociais digitais. Na segunda parte (daqui a alguns dias), Ricardo Amaral dá detalhes sobre a concepção do livro, suas fontes e a história da foto da contra-capa, que retrata a jovem Dilma diante da Primeira Auditoria Militar (Rio), em 1970, depois de ter sido presa e submetida a 22 dias de tortura. Bem-vindo ou bem-vinda à leitura!

Conte um pouco sobre sua carreira como jornalista até chegar à assessoria da presidenta (então candidata). Você esperava, se preparou para isso?

Ricardo Amaral: Estou na profissão desde 1976. Comecei no jornalismo em Belo Horizonte (Jornal dos Bairros, imprensa sindical, O Globo, Veja). Por causa da cobertura da campanha de Tancredo  Neves, muitos de nós viemos parar em Brasília, onde cheguei em 1986, trabalhando para o JB. Cobri a Constituinte, os  planos econômicos, o impeachment, as grandes CPIs e cinco eleições presidenciais. Em 25 anos trabalhei novamente no Globo e Veja, na Folha de S, Paulo e IstoÉ-Senhor, fui colunista no Estadão, Época e Valor Econômico, além de repórter sênior na Agência Reuters e comentarista convidado na Globonews e rede CNT.

Tive duas experiências de governo nesse período: em 1999, trabalhei na assessoria de José Serra no Ministério da Saúde; em 2003 e 2004, fui assessor no ministro Luiz Dulci, no Palácio do Planalto, primeiro governo Lula. No segundo semestre de 2009, decidi deixar de vez as redações e abrir uma consultoria de comunicação. Foi quando recebi um convite para trabalhar com a ministra Dilma Rousseff, que estava se preparando para disputar as eleições.

Trabalhei na assessoria da Casa Civil, sob a coordenação de Oswaldo Buarim,  de dezembro de 2009 a março de 2010 e, em seguida, na campanha presidencial, na equipe de Helena Chagas (um ano no total). Meu trabalho sempre foi mais voltado para dentro: análises de mídia, levantamento de dados, avaliações, preparação de textos e subsídios para a candidata e para os coordenadores da campanha. Meu contato com veículos e jornalistas foi pontual, apoiando a equipe de Helena, responsável pela relação com a imprensa.

Em sua opinião, quais as qualidades indispensáveis a um jornalista-assessor político/ governamental para que tenha sucesso?

R.A.: A experiência ensina que o sucesso  pertence ao assessorado, não ao assessor. Depois de passar pelos dois lados do balcão, acredito que a relação entre assessor e repórter deve se basear na confiança mútua, que é testada todos os dias. O repórter não  vai confiar no assessor que mente e este terá receio de ampliar as informações para um repórter que as trata de maneira distorcida (sem falar na questão do respeito ao off the records). Num cenário de disputa política, como são as campanhas eleitorais, esta relação pode ser estressante.

É preciso entender os limites de cada parte (o compromisso do assessor com o candidato e a subordinação do repórter à linha editorial e política e de seu veículo) para pode explorar melhor as possibilidades. O trabalho do assessor tem melhores resultados quando ele consegue transmitir informações corretas e responder com objetividade às agendas negativas (isso é fundamental para conter a proliferação de notícias erradas). A relação é excelente  quando assessor e repórter dialogam sobre a conjuntura de maneira ampla, quando um consegue aprender com a experiência do outro.

Como era o seu relacionamento com a Imprensa, durante a campanha e agora?

R.A.: A imprensa brasileira sempre teve um papel destacado na vida política do país, mas a  eleição do presidente Lula, em 2002, inaugurou um paradoxo: o líder histórico do PT conquistou o poder institucional, mas o aparato cultural e de comunicação da sociedade permaneceu hegemonizado por seus adversários. Este descompasso persiste até hoje e foi radicalizado em vários momentos da disputa  política, fazendo mesmo parecer que governo e imprensa seriam forças antípodas, substituindo os partidos institucionais.

Teorias à parte, é fato que os grandes jornais e revistas não competem mais entre si pela atenção do público: Globo, Folha, Estadão, Época e Veja detém parcelas estáveis do mercado e não se esforçam para disputar espaço alheio, como era no meu tempo de jovem repórter. Isso favoreceu uma acomodação na forma de hierarquizar o noticiário e na linha editorial dos grandes veículos, que alguns chamam, talvez com exagero, de “pensamento único”. Rádio e TV, com algumas exceções, tendem a meramente reproduzir o que os grandes impressos publicam.

Em sua opinião, qual a importância da imprensa alternativa, especialmente a via Web, nos dias de hoje?

R.A.: O contraponto natural e necessário a este quadro acabou se estabelecendo por meio da internet e das redes sociais. É neste espaço que ocorre o mais vivo debate de ideias e se expressa a disputa política mais qualificada nos dias atuais.  No livro, além de analisar algumas notícias que tiveram impacto sobre o processo eleitoral, dou algumas indicações da presença da web na disputa, fazendo o contraponto à mídia tradicional, promovendo o debate, o proselitismo e, infelizmente, servindo também como veículo de infâmias. Há muito o que aprender com a experiência da rede na última eleição presidencial: isso seria tema para um outro livro. Há pessoas muito qualificadas para enfrentar esse desafio.

Quando e por que você decidiu escrever esse livro? Como a presidenta Dilma reagiu à ideia?

R.A.: O projeto do livro nasceu logo depois das eleições. Achei que era importante fazer um relato jornalístico da eleição da primeira presidenta num país de tradições machistas. Não queria fazer apenas um relato da campanha – o que é habitual em outros países mas não no Brasil (continua…)