As frustrações e alegrias de ser jornalista

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Excluídos

Parte da capa de “Excluídos- o não jornal” (maio de 1996), publicação independente de um grupo de estudantes de Jornalismo da PUC-Campinas, do qual me orgulho de ter participado. Foto: Rossana Lana

Ser jornalista é..

trabalhar muito ganhando pouco ou até mesmo nada, uma vez que, hoje em dia, é comum empresas jornalísticas atrasarem o pagamento de salários e benefícios sob argumento de “dificuldades financeiras” (paga suas contas atrasadas e com juros, mas o carrão importado e a viagem internacional do patrão estão em cima!);

ter absoluta consciência da precarização do seu trabalho para manter os altos lucros do patrão, ser “o portador” da notícia, mas, não sendo “o dono da caneta”, se ver impedido de reportá-la (já que o interesse público só vai até onde não conflite com os interesses do empresariado);

vivenciar situações rotineiras de assédio moral e sexual, perder momentos importantes da vida de seus filhos e familiares sem demonstrar sentimentos (afinal, Jornalismo não é para fracos!);

ser pressionado/a diariamente (às vezes até ameaçado/a), por todos os lados, do patrão/ anunciante a algumas fontes de informação (já que todo mundo quer se dar bem, sair bem na fita e você, mero/a operário/a da imprensa, não pode atrapalhar!);

lidar, em cada matéria, com o conflito entre o que acredita, o que o patrão quer/espera (linha editorial) e o que o leitor/ telespectador/ ouvinte merece (já que um fato pode ter N interpretações);

sentir dor física e moral. Como a visão do patrão costuma prevalecer, caso não seja a mesma do colega a frustração aflora e, acompanhada de toda essa situação cotidiana, provoca estresse, depressão e outras doenças, podendo levar à morte;

Mas, ser jornalista também é..

Sentir a adrenalina da investigação, do furo, do poder de mostrar a coisa errada, desonesta;

Ter o prazer de colaborar (mesmo que só um pouquinho, como grãos de areia) com a conscientização das pessoas sobre valores humanos, justiça, cidadania, mostrar histórias que emocionam e que nos fazem pensar;

Ser persistente e convicto/a. Mesmo vivendo sua frustração cotidiana, encarar cada nova pauta como um desafio de ir mais a fundo, fazer melhor, convencer todo mundo de que a sua história merece a capa, a chamada principal;

Ficar feliz e orgulhoso/a em ver sua assinatura naquela matéria que as pessoas pararam pra ler/ ver/ ouvir e pensar sobre algo que lhes passaria despercebido ou que jamais teriam condições de saber por conta própria;

Sim, apesar de tudo, SER JORNALISTA ainda vale a pena!

#7deAbril  #DiaDaJornalista

Justiça diz NÃO à pejotização e aí querem mudar Lei para legitimar contrato precário

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Jornalistas não foram às ruas dia 30 e não irão. É preciso rever, com urgência, as formas de mobilização da categoria, usar estrategicamente novas ferramentas da Internet

Quando a Justiça do Trabalho, provocada por trabalhadores e seus sindicatos, começa a dizer NÃO à “pejotização” (contratação de trabalhador como pessoa jurídica- empresa), empresários e seus comparsas no Congresso Nacional articulam mudança na Lei para continuar precarizando trabalhadores de todos os segmentos, inclusive jornalistas. Isso mesmo, o Projeto de Lei (4.330- em tramitação na Câmara dos Deputados), de autoria do “digníssimo” deputado Sandro Mabel (PR-GO), caso aprovado e sancionado, permitirá a terceirização de atividades-fim das empresas no País, legitimando o que a Fenaj chamou de “desmonte dos direitos garantidos pelo vínculo empregatício”.

A Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) orientou a participação dos sindicatos de jornalistas de todo o País nas manifestações realizadas dia 30 de agosto, quando as centrais sindicais priorizaram o “fim das terceirizações” na pauta levada às ruas. Em texto divulgado dias antes, a Federação dos Jornalistas explica que a legislação atual restringe a terceirização pelas empresas às atividades que não integram sua área de atuação. Por exemplo, em uma empresa de comunicação é permitido terceirizar serviços como portaria, limpeza e segurança, mas não de jornalismo.

PJ não tem direitos

“Diversos sindicatos de jornalistas têm conseguido, tomando apoio na atual legislação, impor às empresas a contratação de profissionais cujos direitos eram sonegados. Isso já aconteceu em empresas como a TV Record, a editora Abril e o jornal Folha de S.Paulo”, diz a Fenaj, que explica porque ser PJ não é nada bom: “Como PJ, o trabalhador pode perder de uma só vez todas as suas garantias trabalhistas: o direito à jornada de trabalho, ao intervalo de refeição, ao descanso semanal remunerado, às férias, ao 13º salário, à aposentadoria pública, ao Fundo de Garantia, aos 40% do FGTS em caso de demissão. Passa a ter direito apenas ao pagamento mensal e às condições estabelecidas em contrato (firmado com a contratante)”.

A Fenaj acredita e, devo concordar, que a sociedade também perde com a precarização dos jornalistas, na medida em que afeta diretamente o direito à informação correta e bem apurada. “Profissionais mal remunerados, com jornadas extensas e sem direitos e garantias não têm condições adequadas para realizar um trabalho jornalístico com a qualidade que a sociedade brasileira precisa e à qual tem direito”, explica. Para a Fenaj, não há o que negociar neste projeto, que tem de ser retirado ou rejeitado.

Individualismo

Pelo que vi e de costume, os jornalistas não foram às ruas dia 30, mas somente alguns sindicalistas. E não esperava que fossem, já que em geral somos essencialmente individualistas, não nos vemos como categoria de trabalhadores. Alguns até mesmo nem acham que são trabalhadores, mas sim intelectuais, profissionais independentes, que podem e devem negociar sua força de trabalho individualmente. Poder, podem, mas em minha opinião não devem, já que isso contribui para enfraquecer a categoria e, com o passar dos anos, também perderão, na medida em que o salário um pouco melhor que negociaram com o patrão hoje não valerá nada perto de um piso de categoria desvalorizado.

Sim, sem fortalecer o piso da categoria, entre outras condições de trabalho, seu salário de repórter “especial” ou algo do tipo não será nada significativo, já que qualquer “plus” terá sempre o piso como referência. Alguns, creio, até já cogitaram participar de algum ato nas ruas ou outra ação coletiva, mas desistiram por motivos como: “não vou me envolver porque posso perder meu emprego ou novas oportunidades de trabalho com isso” ou “não vou perder meu tempo com isso porque não acredito em sindicato”, etc., o que é perfeitamente compreensível diante de um mercado extremamente competitivo e muitas diretorias de sindicatos enfraquecidas ou inoperantes.

Por isso, penso que é preciso rever, com urgência, as formas de mobilização da categoria de jornalistas, o que inclui utilizar estrategicamente as novas ferramentas de comunicação via Internet. Sei que não há receita nem roteiro pra isso, é preciso refletir, discutir, planejar e experimentar. O que não dá é pra querer envolver esta categoria apenas chamando para assembleias e manifestações de rua, né?!!

 

Jornalista promove seminário para contar sobre viagem a Cuba

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Jornalista de Campinas (SP-Brasil), Amanda Cotrim, promove seminário, neste sábado (30)

‘Aproximar mundos; desmistificar Cuba’ é o tema do seminário. Contar sobre minha experiência foi o caminho encontrado para aproximar esses dois lugares tão distintos e, ao mesmo tempo, tão semelhantes (Brasil e Cuba)

Amanda Cotrim, Especial para o Blog da Mi

Em minha primeira viagem internacional, tive como destino Cuba (e não poderia ser diferente). Com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, fui para a Ilha estudar cinema, na Escola de Cinema e TV de Cuba, que fica em San Antonio de los Baños, no interior da província Havana, capital do país.

O curso teve duração de quinze dias, mas eu dobrei esse número e fiquei um mês em Cuba. Apesar do pouco tempo, pude conhecer, de fato, o que nem tudo a teoria é capaz de abarcar.

No primeiro momento, quando “pisei” no aeroporto José Martí, meus músculos enrijeceram por completo. Estava em Cuba. A primeira certeza disso foi o cheiro: a Ilha tem cheiro.

Apesar de ir estudar cinema, estava com meu gravador e minha máquina fotográfica nas mãos, dispostas a recolher o máximo de material possível para realizar uma grande reportagem. Nessas horas o “espírito” de repórter fala mais alto. Cumpri com o que prometi a mim. Trouxe de Cuba grandes histórias.

Amanda “ao lado de ” Glauber Rocha, na Escola de Cinema e TV de Cuba

Também pude me revoltar ao perceber que fui completamente enganada sobre Cuba. Primeiro, a Ilha não é uma ilha. Segundo, em Cuba a liberdade de expressão não só existe como se manifesta com muita naturalidade. Não é por menos que gravei (com gravador mesmo) com alguns cubanos conversas sobre política, cultura, saúde, imprensa, entre outros.

Pude conhecer um hospital cubano, pois, infelizmente, tive problemas de saúde na ilha. Entraram grãos de areia no meu olho, durante um passeio na praia, e eu acabei pegando conjuntivite. O tratamento que recebi em Cuba foi rápido e fácil. Pude conhecer um pedacinho do bolo tão invejado e admirado pelo mundo: a saúde cubana.

Pretendo ressaltar que os Cubanos não são ET´s: eles amam, brigam, dançam, comem porcaria (salgados, refrigerantes, etc), fumam, bebem, falam palavrão, se irritam, amam, tomam cerveja e gostam MUITO de cinema! (risos). A diferença dos cubanos está num campo que não se atinge de um dia para o outro: os valores. Esses que só foram transformados porque, na prática, houve um mudança estrutural, na economia, na política e, consequentemente, na sociedade.

Meu objetivo com o seminário, na Fábrica Flaskô, é esse:  Aproximar mundos; desmistificar Cuba. Contar sobre minha experiência foi o caminho encontrado para aproximar esses dois lugares tão distintos e, ao mesmo tempo, tão semelhantes (Brasil e Cuba). O seminário contará com  apoio de imagem, vídeo e áudio.

“Cuba Livre”

“Crianças Cubanas”

 

Fotos: Arquivo pessoal Amanda Cotrim

 

Serviço:

O quê: Seminário Cuba (participação gratuita)

Quando: Sábado, 30 de junho de 2012, às 16h

Onde: Fábrica Flaskô- Rua Marcos Dutra Pereira, 300, Jardim Bandeirantes, Sumaré (SP)

Contato: (19) 3864.2624

Como o jornalista deve lidar com questões de gênero e raça?

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Curso Vozes Pela Igualdade pretende estimular observação, pesquisa e reflexão sobre a cobertura jornalística de questões de raça e gênero

Você, jornalista, já refletiu como pode contribuir para a redução do preconceito e das desigualdades raciais e de gênero através do seu trabalho? Na Redação de um veículo ou agência de Comunicação, em seu blog ou site, em seus perfis nas redes sociais digitais e até mesmo em conversas com familiares e amigos, sabemos que a visão ou a opinião de um jornalista é sempre respeitada, promove reflexão, conscientização e mudanças. E no ambiente de trabalho, já observou se há discriminação com jornalistas negros, mulheres e gays, se eles têm as mesmas oportunidades e salários que os outros?

Pois é. Coloco este assunto em discussão porque, penso, é algo que nunca deve sair da pauta, pelo menos enquanto existirem preconceito e desigualdade, mas especialmente neste ano, declarado Ano Internacional dos Afrodescendentes pela ONU (Organização das Nações Unidas), e neste mês de Novembro, o Mês da Consciência Negra. Por isso, vários eventos com essa temática estão sendo realizados neste ano, a exemplo do Seminário  A Mulher e A Mídia 8 : Mídia, Sexismo e Racismo, uma pauta ainda em questão? (RJ, 29/11 a 01/12) e do curso  Vozes Pela Igualdade (SP, 7 a 25/11).

Como?

Eventos como estes são boas oportunidades para adquirir conhecimento, acessar novas opiniões e ideias, refletir e rever valores que, muitas vezes, reproduzem preconceitos embutidos na sociedade há séculos. Embora o jornalista, quase sempre, não seja dono do veículo de comunicação ou empresa na qual trabalha, tem certo grau de autonomia que pode fazer diferença. É o que defende o jornalista Flávio Carrança, coordenador da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira) do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.

Concordo com ele, já que a abordagem correta dos e das personagens em uma reportagem, a valorização da cobertura de assuntos relacionados, como as políticas públicas e privadas criadas para reduzir as desigualdades, são alguns exemplos de como o jornalista pode colaborar com algo tão importante para toda a sociedade. Além disso, pode ajudar sugerindo e participando da inserção de políticas que promovam a igualdade de condições entre os colegas de trabalho.

“A Imprensa é fundamental para promover a mudança de conceitos e o apoio em massa dos jornalistas seria uma contribuição extremamente positiva. Avalio que o quadro melhorou nos últimos anos, mas ainda não está na Ordem do Dia. Nas escolas de Jornalismo, por exemplo, deveria constar da grade de disciplinas, porque é preciso qualificar os profissionais sobre como tratar adequadamente as questões raciais e de gênero”, considera Carrança.

Imprensa Negra

Importante também para o jornalista conhecer, dentro da história da Imprensa brasileira, a Imprensa Negra, representada pelos primeiros pasquins que colocaram em discussão as desigualdades enfrentadas pelos negros, já em 1833, antes mesmo da libertação dos escravos (Lei Áurea, 1888).  Carrança conta que essas publicações foram motivadas pela diferenciação imposta aos negros (já libertos) em cargos públicos aos quais tinham acesso na época, especialmente na Guarda Nacional, porque não havia brancos em número suficiente para atingir o contingente necessário.

Esses pasquins (O Mulato ou O Homem de Cor, Brasileiro Pardo, O Cabrito e O Lafuente) foram publicados no Rio de Janeiro durante a Regência, em meio a vários outros pasquins que surgiram na época diante das incertezas sobre os novos rumos do País. “Acredito que essas publicações foram circunstanciais. Não houve continuidade. Só vimos movimento similar bem depois”, considera Carrança.

Entre as publicações seguintes, ele cita algumas do final do século XIX, diante das grandes dificuldades enfrentadas pelos negros no mercado de trabalho com a Lei Áurea: A Pátria (SP, 1889); O Homem (PE, 1876); O Exemplo (RS, 1892). E, depois, na primeira metade do século XX, com O Getulino (Campinas-SP, 1923), pelos jornalistas Lino Guedes e Gervásio Moraes; e Clarim da Alvorada (São Paulo, 1924), por José Correa Leite e Jaime Aguiar.

Curso e visita ao Museu

Imprensa Negra- Raízes foi o tema do debate no primeiro dia do curso Vozes Pela Igualdade, 7 de Novembro, realizado pelo Sindicato dos Jornalistas em sua sede, em São Paulo. O curso, gratuito, é destinado a jornalistas e estudantes de Jornalismo, com o objetivo de contribuir para o fim da violência de gênero e raça e para a construção da igualdade e do fim da discriminação, por meio do estímulo à observação, à pesquisa e à reflexão sobre a cobertura jornalística dessa temática.

O projeto é resultado de parceria entre o Sindicato e a Cojira, com apoio e organização do CELACC-ECA/USP (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação). Entre os próximos eventos que integram o curso está uma visita monitorada ao Museu Afro Brasil (vídeo), no próximo domingo, dia 13 de Novembro, entre 14h e 17h. Não é preciso pré-inscrição nem estar no curso para participar da visita, basta comparecer à recepção do Museu (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/no. – Parque Ibirapuera – Portão 10 – São Paulo- SP), às 13h30.

“O Museu Afro Brasil tem um acervo único no País, seja pela quantidade ou diversidade. A visita permite uma aproximação mais qualificada com o tema”, avalia Carrança. Detalhes da programação e outras informações sobre o curso, que vai até 25 de Novembro, no site do Sindicato dos Jornalistas de SP.