Blogueir@s apontam necessidade de rede de apoio e financiamento

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1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (3)

Blogueiros e ativistas da região de Campinas expõem dificuldades e desafios

Participantes do 1º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de Campinas e Região apontaram a necessidade de criação de uma rede de apoio e financiamento, que viabilize a execução de suas atividades com o mínimo de tranquilidade e segurança. Além do patrocínio, essa rede incluiria apoio jurídico e a valorização dos conteúdos produzidos por esses comunicadores, que podem contribuir muito com os movimentos sociais de esquerda e a classe trabalhadora da Região Metropolitana de Campinas (RMC).

De fato, não falta gente interessada e comprometida nem mesmo espaço, já que os tradicionais sites de notícias da região são bem poucos e muitas vezes deixam a desejar em qualidade e representatividade da maioria da população, composta por trabalhador@s, mulheres e negr@s. Na pauta desses veículos de comunicação, via de regra os interesses do grande empresariado se sobrepõem aos da maioria e, muitas vezes, o que vemos são fatos distorcidos e desrespeito aos Direitos Humanos.

1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (5)

Michele da Costa: Blog da Mi e Coletivo Jornalistas de Campinas e Região

O Encontro foi realizado dia 25 de março, pela Adunicamp (Associação dos Docentes da Unicamp) em parceria com o site Carta Campinas e o Barão de Itararé. Participei da Mesa da tarde, enquanto mediadora, blogueira e representante do Coletivo Jornalistas de Campinas e Região, por isso não pude deixar de falar sobre a precarização das condições de trabalho dos jornalistas, iniciada muito antes da “lei da terceirização”, que prefiro chamar de legalização da precarização.

Além disso, com as demissões em massa nos veículos de comunicação tradicionais nos últimos anos, a internet tem se tornado um novo campo natural para o trabalho de muitos jornalistas, que investem em sites e blogs de informação e opinião, mas quase sempre esbarram na dificuldade em obter patrocinadores e/ou anunciantes. Se tem posicionamento político de esquerda, então, fica ainda mais difícil. Daí a oportunidade de investimento para movimentos sociais, entidades e pessoas que desejam a ampliação de uma rede de informação qualificada, classista e, no caso de Campinas, voltada aos acontecimentos regionais, o que seria uma grande e boa novidade.

1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (7)

Paulo San Martin (Adunicamp) fala sobre proposta de central de compartilhamento

Nesse contexto, a Adunicamp apresentou a proposta de criação de uma rede de compartilhamento de conteúdo para blogueir@s, em desenvolvimento por meio de parceria com professores do Instituto de Computação da Unicamp. Os participantes demonstraram interesse e fizeram sugestões de possíveis ajustes.

Entre os participantes da Mesa, Elias Aredes (Bola com Gravata e Só Derbi), Lucas Santana e Paola (Bonde Mídia), Júnior (Socializando Saberes), José (Galoá Journal), Gilberto Gonçalves (Jornal Alto Taquaral) e Sérgio (Advogados Independentes Campinas). Rodrigo Grassi, do Botando Pilha, também contribuiu com uma exposição inicial. Na parte da manhã, o evento contou com um bom público, que compareceu para prestigiar os convidados Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Aparecido Araújo Lima (Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé) e Glauco Cortez (Carta Campinas).

1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (2)

Mesa da manhã (da esquerda para a direita): Glauco Cortez, Eduardo Guimarães, Paulo Henrique Amorim e Aparecido Araújo Lima

1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (1)

Plateia acompanha apresentação de convidados durante a manhã

Fotos: Véronique Hourcade

Sheherazade e as desigualdades entre homens e mulheres no Jornalismo

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Além do evidente uso inadequado de uma concessão pública de TV em claro desrespeito aos direitos humanos, o recente episódio envolvendo a apresentadora- âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, me fez pensar sobre as condições de desigualdade profissional entre homens e mulheres jornalistas, evidenciadas pelo uso estereotipado e machista da imagem da mulher no telejornalismo brasileiro. Assim como Rachel, a quase totalidade das colegas que trabalham em telejornalismo no Brasil são jovens, brancas, magras e com cabelos lisos (ou alisados). E pior, mesmo nestas condições, normalmente se sentem vitoriosas pela “conquista profissional”.

Embora outras “qualidades”, como formação, experiência e ética possam chamar a atenção de qualquer “chefe”, sabemos que o que pesa mesmo na hora da escolha é o padrão visual, principalmente para as apresentadoras dos telejornais. São os apresentadores (homens e mulheres) que permanecem por mais tempo na tela, têm a missão de prender a atenção do telespectador, garantir boa audiência e, por consequência, atrair anunciantes. Só que o padrão visual é exigência somente para o sexo feminino.

Os jornalistas de TV podem ser mais velhos, com cabelos brancos, calvos e até mesmo “gordinhos”, já que eles, sim, precisam ter boa experiência e conteúdo, para transmitir confiança e credibilidade ao telespectador. Não que elas (jornalistas de TV) em geral não tenham esta qualificação também, algumas vezes têm até mais que eles, mas, como já disse, na maioria das vezes não é o que prevalece para a escolha nem para a permanência no cargo.

Visual apelativo

Há tempos venho observando as roupas das apresentadoras de telejornais, muitas vezes justas demais, brilhantes, saias curtas com pernas cruzadas e blusas decotadas, sem contar a maquiagem, por vezes também muito pesadas, evidenciando um modelo de sensualidade apelativo e em absoluto desrespeito com uma categoria profissional e com as telespectadoras. Já eles, os colegas, sempre de roupa social (terno e gravata) ou esportiva (calça jeans, camisa pólo e tênis), no caso dos que cobrem esportes.

Dessa maneira, temos um perfil predominante de profissional feminino no telejornalismo muito mais visual do que técnico, que possivelmente em muitos casos (que pode ou não ser o de Rachel) não reflete mesmo sobre o conteúdo ou prefere, conscientemente, ler um editorial recheado de preconceito social e racismo do que adotar uma posição mais crítica e colocar em risco sua posição na emissora. Se ela mesma pode pensar assim, não sei, mas pode ser também, já que muitos colegas (homens e mulheres) entram e saem da faculdade de Jornalismo sem assimilar conceitos básicos de Humanidade ou Ética Profissional, afinal, ao mercado empresarial isso não tem peso significativo, infelizmente. E pra piorar, muitas vezes acabam incorporando a linha editorial do veículo de comunicação no qual trabalham.

Emissoras são responsáveis

De qualquer jeito, penso que a grande responsabilidade, em todos os sentidos, é das emissoras de TV, seja pelo conteúdo editorial veiculado, seja pela desigualdade de condições de trabalho que desfavorece as mulheres jornalistas. E a desigualdade enfrentada pela mulher no Jornalismo (isso inclui todas as mídias e também as agências de comunicação e assessoria de imprensa) não se restringe ao “papel que ela tem de assumir em frente às câmeras”, mas em todos os sentidos.

Além da condição de desigualdade para ir ao mercado de trabalho, comum às mulheres de qualquer profissão, aliás, já que lhes cabe mais responsabilidades com filhos, casa e idosos, as jornalistas (embora maioria e, em média, com mais qualificação) recebem salários menores que os colegas e ocupam bem menos cargos de chefia (veja pesquisa recente). É, a gente precisa refletir mais sobre isso, colega, e contrapor esta realidade dia-a-dia, até que seja alterada, não aceitando, por exemplo, esse padrão visual feminino do telejornalismo, extremamente desigual, preconceituoso e machista.

E aos telespectadores, um convite: rejeite este modelo, boicote, proteste! Porque, afinal, eles justificam o que passam na TV dizendo que é o que somos, o que queremos. Então precisamos dizer que isso é passado, que não somos mais assim. Enquanto sociedade, estamos em transformação, é verdade, e sempre estaremos, por isso não podemos ficar presos no tempo. Reforçar modelos ultrapassados e preconceituosos, que não mais condizem com a realidade, é no mínimo desrespeitoso e nada inteligente, não acha?

Polícia impede acesso da Imprensa a Boletins de Ocorrência de chacinas que mataram 12 em Campinas

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Há suspeita de que crimes tenham sido praticados por policiais. Chacinas ocorreram na região do Ouro Verde, horas depois de um PM ter sido morto em uma suposta tentativa frustrada de assalto na mesma região

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A Polícia civil impediu o acesso da Imprensa aos Boletins de Ocorrência (BOs) de chacinas que provocaram a morte de 12 pessoas em bairros da região do Ouro Verde, em Campinas (SP), entre a noite de domingo (12) e a madrugada desta segunda (13/01). A negativa de acesso a estas informações públicas, como de costume, aos repórteres que fazem a cobertura policial na cidade, desperta ainda mais suspeitas contra a Polícia (corporação), já que policiais estão entre os suspeitos de autoria das chacinas.

Conforme noticiado pela Imprensa, as chacinas ocorreram horas depois de um policial militar ter sido morto em uma suposta tentativa de assalto a um posto de gasolina na mesma região. Segundo relatos de testemunhas, os assassinatos em grupo foram praticados por homens encapuzados, trajando “capas estilo militar”, que chegaram em dois carros. No bairro Vida Nova, os assassinos teriam pedido que algumas crianças entrassem para dentro de uma casa antes de fazerem os disparos contra um grupo de jovens que estavam na calçada.

Passagem pela Polícia

Entre as primeiras informações dadas pela Polícia em coletiva à Imprensa, na manhã desta terça (13), está a de que pelo menos a metade dos mortos já identificados nas chacinas tem passagem pela Polícia, evidenciando a tentativa de “justificar” as mortes (lembrando a máxima de Maluf, pai da Rota, de que “bandido bom é bandido morto”) e amenizar a indignação das pessoas em geral. Mas claro que a indignação da classe média e alta, em sua maioria absoluta, não vai além de um “nossa, que horror!”, já que morto da periferia (bandido ou não) não tem, nem de perto, o mesmo valor de morto de bairro nobre.

Como bem lembrou um colega jornalista, há poucos meses uma onda de assaltos em Barão Geraldo (distrito universitário, classes A e B) e um deles, em especial, que levou à morte uma professora, provocou uma série de reportagens na Imprensa e reforço do policiamento no local. Quais serão, então, as ações imediatas da Polícia comandada por Geraldo Alckmin (PSDB) na região onde foram assassinadas 12 pessoas em poucas horas? Certamente, bem diferentes, já que a região do Ouro Verde, uma das mais populosas da cidade, é também uma região periférica e pobre.

Ainda mais, depois que alguns ônibus foram incendiados no Vida Nova (um dos locais das chacinas), nesta terça (13), possivelmente como forma de protesto pelas execuções em grupo, exatamente como vêm ocorrendo na Região Metropolitana de São Paulo.. Um outro colega da Imprensa local chegou a sugerir à PM que não chegasse “quebrando tudo” para coibir as depredações de ônibus, ciente de que este é o comportamento costumeiro da Polícia nestes casos.

Policiais investigando policiais ?!?

O Comando da Polícia também disse, via Imprensa, que as investigações das chacinas seriam comandadas por 5 delegados e, como reforço, também estaria vindo de São Paulo uma equipe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), já que Campinas não tem uma Delegacia de Homicídios. Compreendo que a Polícia tem de fazer o papel dela, de investigar crimes, mas neste caso, em que há suspeita de envolvimento de policiais, como acreditar que esta investigação, conduzida por policiais, será minimamente isenta? Necessária e urgente a intervenção do Ministério Público e de órgãos de Direitos Humanos para que os fatos sejam apurados de forma independente, já que ao DHPP também caberia um R no final, pois costuma ser mais útil na proteção de pessoas ricas.

Volto agora a me debruçar ao fato da Polícia ter negado acesso da Imprensa aos BOs das chacinas, o que nos remete ao período da Ditadura Militar no Brasil, em que a Imprensa tradicional passou a ser mera divulgadora de releases (textos prontos) do governo (militar) e receitas de bolo. Um período em que direitos básicos, entre eles o direito à informação, foram negados, e a barbárie tomou as ruas, como bem sabemos. Concluo que, enquanto os militares (que carregam os mesmos princípios que tinham na época da “revolução”) estiverem nas ruas, executando função que cabe à uma guarda civil, os direitos humanos não serão respeitados plenamente.

Mais do que tudo, é preciso agir na causa.. são necessárias e urgentes também mudanças na Polícia e na política de segurança pública do País, mas, para isso, é preciso muita Coragem! Clamo por isso, ansiosamente.

Foto: Marcelo Camargo/ ABr (Audiência Pública, em janeiro de 2013, sobre violência na periferia de São Paulo)

Fotos de velório de vítimas das chacinas. Por Leandro Ferreira–  https://www.facebook.com/fotografoleandroferreira/media_set?set=a.671953989522327.1073741904.100001231963459&type=1