É preciso lembrar de onde viemos, ter consciência de onde e como estamos e saber onde queremos chegar. Juntos!

Mais um 16 de Abril, Dia do Repórter. Essa função que é, sem dúvida, a essência do Jornalismo, já que sem repórter não há reportagem e sem reportagem, de verdade, o acesso à informação, direito constitucional dos cidadãos brasileiros, é ameaçado. Penso que ser repórter é uma paixão sem fim, inquietude incessante e instigante que nos move a vencer obstáculos que parecem, por vezes, intransponíveis. Bem definiu Gay Talese, em seu célebre ‘O Reino e o Poder- Uma história do New York Times’, ao descrever, com a riqueza de detalhes que lhe é peculiar, um dos personagens, “… De repente, ele foi carregado pelo dia-a-dia do Jornalismo, o ópio dos irrequietos.”.

Quando eu tinha 8 anos de idade, participei de um concurso de Redação com o tema ‘O que você quer ser quando crescer?’. Como não tinha ideia da complexidade da profissão e só conhecia o que via na TV, escrevi que queria ser repórter, com direito a desenho (uma moça entrevistando alguém, empunhando um microfone). Ah, adoraria ter guardado isso! Bem, acho que minha narrativa apaixonada contagiou os avaliadores e fui vencedora entre os alunos da escola. Anos depois me tornei repórter, jornalista de profissão, mas acima de tudo repórter por vocação e paixão.

Assim como eu, certamente todos vocês, colegas jornalistas e repórteres, têm em suas lembranças histórias de como e por que decidiram por esse trabalho. E é bom lembrar, para nunca nos esquecermos de onde viemos, o que nos leva a refletir sobre onde e como estamos e, principalmente, onde queremos e podemos chegar. Assim, convido-os hoje, nesta data especial, a refletir sobre nossa situação, os dilemas, dificuldades, erros e acertos, e espero que isso possa nos guiar para soluções, melhorias e conquistas coletivas. Sim, tenho absoluta convicção de que somente conquistamos algo verdadeiro, que faça diferença, coletivamente.

Violência

Nesse contexto, uma das questões que mais tem me chamado a atenção nos últimos anos é a violência constante a que nós, jornalistas repórteres, temos sido submetidos. Enquanto o mundo clama pela verdadeira e efetiva Democracia, o que exige liberdade de expressão e imprensa livre, jornalistas brasileiros, que (assim como todos) carregam a difícil e honrosa missão de tornar público o que é de interesse público, são constantes vítimas de agressões, que incluem desde a precarização das condições de trabalho (que pode levar à morte lenta e dolorosa) até ameaça, agressão verbal e física, tortura, intimidação e assassinato.

Somente neste início de ano já tivemos dois jornalistas (no RJ e em MS) e um radialista brasileiros assassinados, ao que tudo indica, decorrente do trabalho. De acordo com a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), em reportagem veiculada hoje pelo Portal Comunique-se, desde 1987, 41 jornalistas foram assassinados no Brasil, quatro deles em 2011. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) pretende divulgar em Junho, durante o Congresso Nacional de Jornalistas, no Acre, o relatório de 2011 intitulado ‘Violência e Liberdade de Imprensa no Brasil’, que traz estatísticas e casos de violência contra jornalistas.

O Relatório de 2010, lançado em Julho do ano passado, traz dados relevantes, que merecem atenção de toda a sociedade e, claro, leitura obrigatória a todos os jornalistas. São listados quarenta casos, denunciados através de sindicatos de jornalistas dos estados e diretamente à Fenaj. A entidade tem consciência de que esse número é muito inferior à realidade, mas considera importante divulgá-lo para motivar novas denúncias, ano a ano, para chegarmos a um quadro cada vez mais próximo do real e usarmos isso como instrumento de defesa da informação, dos profissionais e da sociedade.

Nos dados do relatório de 2010, destaco alguns:

Por tipo de agressão: 42% físicas e verbais, 18% censura e processos judiciais; 13% detenção e tortura, 12% ameaças, 8% violência contra a organização sindical, 5% atentados e 2% assassinatos.

Por estado: 20% no Ceará, 15% em São Paulo.

Por região: 44% no Nordeste, 23% no Sudeste.

Por gênero: 71% das vítimas são homens e 23% mulheres.

Segmento de trabalho mais atingido: 56% profissionais de texto.

Agressores: 25% políticos ou a mando deles, 25% Polícias e Guardas Municipais, 17% empresários.

Temas trabalhados pelos jornalistas alvo de violência: 42% Política  e Administração Pública, 40% realidade urbana, rural ou social.

Tipo de Mídia em que atuam as vítimas: 41% impressas, 18% televisões.

Cenário Mundial

Enquanto não sai o relatório da Fenaj de 2011, fiquemos com os dados da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) do ano passado, mencionados em nota da Fenaj (13/02/2012), que mostram o Brasil entre os países com mais registros de morte de profissionais de comunicação. Em texto da Abraji  (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), é mencionado ranking de liberdade de expressão divulgado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras, no qual o Brasil perdera 41 posições nos últimos anos.

“De acordo com o International News Safety Institute (INSI), no ano passado o Brasil foi o 8º país mais perigoso do mundo para jornalistas. Até agora, o país ocupa a primeira posição no ranking de 2012, empatado com a Síria”, acrescenta a Abraji. Diante da situação, a Fenaj considera a necessidade de “medidas mais enérgicas para constranger a impunidade”, que devem vir especialmente do Governo Federal e do Congresso Nacional, em sua opinião. Uma delas é a possível aprovação de projeto de lei 1078/11, do deputado federal Delegado Protógenes (PCdoB-SP) que propõe a federalização da apuração de crimes contra jornalistas. Assim, a Polícia Federal é quem passaria a investigar esses crimes.

Agora, e o que cada um de nós pode fazer para colaborar? Em minha opinião, nós, jornalistas não podemos nos calar e nem nos acomodar, precisamos nos unir para fortalecer a categoria. Individualmente, não temos forças, mas juntos, somos grandes! Então, é fundamental denunciar casos de agressão, todos, e participar dos nossos sindicatos (propondo, agindo e cobrando dos dirigentes a representatividade a que temos direito). Pense nisso! E parabéns pelo seu dia, ou melhor, Nosso!