Para Audálio Dantas, falta coragem dos governos para agir contra abusos da PM

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Da esquerda para direita: Cardoso, Audálio Dantas, Torves (mediador) e Rebelo

Da esquerda para direita: Cardoso, Audálio Dantas, Torves (mediador) e Rebelo

“A PM é uma herança maldita! Raros são os dias em que policiais militares não atiram para matar nas periferias das grandes cidades, fazendo vítimas jovens e negros. Falta coragem dos governos para agir contra isso”, disse o jornalista e escritor Audálio Dantas, durante o 36º Congresso Nacional dos Jornalistas, realizado entre 2 e 6 de abril de 2014, em Maceió (AL). Ele foi um dos convidados para o debate ‘O Jornalismo e a Democracia contemporânea’, dia 4, ao lado de Edson Cardoso, assessor especial da ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, e Aldo Rebelo, ministro dos Esportes.

Aos colegas que não conhecem a história de Audálio Dantas, recomendo a pesquisa. Aos 80 anos de idade, se mostra mais lúcido que muitos jovens adultos. Entre outros feitos, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP) entre 1975 e 1978, período em que a entidade denunciou a omissão das autoridades no caso da morte de Vladimir Herzog (então diretor da TV Cultura de São Paulo), torturado e morto pelos militares. Também presidiu a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj): o primeiro eleito por voto direto, em 1983.

Depois de suas exposições iniciais, Dantas e Cardoso interagiram com a plateia e contribuíram para um bom debate, um dos melhores do Congresso em minha opinião, apesar do que considerei uma falta de respeito do ministro e colega (jornalista) Aldo Rebelo, cujo ministério- dos Esportes- foi um dos patrocinadores do Congresso, assim como a Seppir, entre outros.

Saída à francesa

Rebelo falou à vontade e foi embora sem sequer ouvir as perguntas dos participantes. A justificativa foi que precisava visitar sua mãe. O discurso do ministro foi longo. Ele falou das dificuldades enfrentadas por jornalistas e políticos durante a Ditadura e reclamou de críticas veiculadas pela Imprensa sobre a Copa do Mundo de Futebol da FIFA, que será realizada no Brasil neste ano. Enquanto Rebelo falava, alguns cartazes, com críticas à Copa e/ou à forma como o evento vem sendo viabilizado, foram erguidos na plateia.

Contraditório como justamente em um Painel sobre Jornalismo e Democracia, um dos debatedores da Mesa (o ministro e jornalista) discursa e vai embora, e ainda, na sequência, a direção da Fenaj (realizadora do Congresso) tenta restringir as inscrições para perguntas em apenas três diante de uma fila de pelo menos doze companheiros, a maioria delegados (eleitos pelos sindicatos estaduais para representar a base no Congresso). Sob protestos, mas somente após intervenção de Cardoso (Seppir), acabaram voltando atrás e reabrindo os microfones.

Também coube a Cardoso tentar remediar a ausência do colega do Planalto, sugerindo o envio das perguntas por e-mail. Sem desconsiderar a boa vontade dele, certamente que quem vai a um debate não se conforma em enviar perguntas por e-mail. Cardoso se disse emocionado ao ver o tamanho da fila que se formou rapidamente após as exposições dos debatedores. “Sinal de que as pessoas têm algo a dizer”, disse ele.

Audálio em Campinas

Na próxima quarta (23 de abril), Audálio Dantas participará de debate da Jornada de Jornalismo da PUC-Campinas (Campinas-SP), a partir das 19h30, no Auditório D. Gilberto (Campus I). O tema do debate será o Golpe de 1964.

 

* Com informações do Portal dos Jornalistas (sobre trajetória de Audálio Dantas)- http://www.portaldosjornalistas.com.br/perfil.aspx?id=2494 e do SJSP- Regional Campinas (sobre o debate em Campinas)

Jornal O Vale: quando a ilegalidade vira rotina

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Votação de estado de greve na Redação de O Vale, em janeiro de 2013 (foto extraída do site do SJSP)

Votação de estado de greve na Redação de O Vale, em janeiro de 2013 (foto: SJSP)

O pagamento de salários com atraso, a contratação de jornalistas como ‘freela fixo’ (sem registro em carteira) e contratações por salários abaixo do piso da categoria já viraram rotina no Jornal O Vale, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba (SP). Nos últimos dias, uma pessoa que trabalha na Redação do “digníssimo” periódico me procurou para falar destes problemas, que revelam a precariedade a que são submetidos os colegas lá. Infelizmente, sabemos que esta não é a única empresa que precariza jornalistas, mas nem por isso tais ilegalidades podem ser admissíveis, banalizadas.  

 

Segundo este relato, o atraso no pagamento dos salários teria atingido todos os trabalhadores (310, segundo o site da empresa), mas há outras irregularidades na contratação de jornalistas: maioria dos repórteres contratados como ‘freelancers fixos’ (sem registro em carteira e os direitos previstos na legislação trabalhista, mas com as mesmas obrigações que qualquer outro trabalhador) e com salários muito abaixo do piso da categoria, acúmulo de função e de horas extras não pagas. “O pior é que os editores estão chamando novos profissionais para trabalhar sabendo que a empresa não está conseguindo cumprir os compromissos financeiros”, acrescenta.

 

Em resposta a esta pessoa, a Regional do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo (SJSP) disse que já fizeram tudo que podiam sem a participação dos funcionários, por isso só restaria a greve, já que o atraso no pagamento de salários nesta empresa ocorre há mais de um ano. A empresa alega que não tem dinheiro para honrar seus compromissos e a situação já foi e continua sendo denunciada ao Ministério Público do Trabalho, que aplicou multas, segundo esta resposta do SJSP.

 

Histórico

 

Em uma rápida busca no Google encontrei duas notícias sobre o problema em O Vale (nenhuma em site de empresas jornalísticas, claro). Uma delas no site do SJSP, de 29 de novembro de 2012, fala de uma mesa redonda que aconteceria entre Sindicato e diretoria da empresa, devido ao atraso no pagamento dos salários em 2 meses consecutivos. Já a segunda notícia, veiculada no site da Comunidade JusBrasil, há 1 ano, traz um histórico do caso, que inclui também o jornal Bom Dia (os dois jornais pertenciam à mesma empresa, a Valebravo Editorial, ambos em S. J. dos Campos).

 

O histórico relata uma manifestação conjunta em frente à empresa, realizada por quatro sindicatos (dos Jornalistas, dos Gráficos, dos Publicitários e dos Administrativos), e a realização de uma Mesa Redonda no DRT, que gerou um acordo que não foi cumprido pela empresa. Ainda, conforme esta notícia do JusBrasil, no dia anterior à manifestação os trabalhadores estavam em estado de greve e a direção da empresa teria trancado as portas para impedir que saíssem e participassem da assembleia que decidiria pela paralisação.

 

Há informação também de que aproximadamente a metade da equipe de Redação foi demitida após a mobilização, há mais de um ano. Entre colegas da Redação, há boatos de que a empresa pretende trocar o CNPJ para fugir de seus copromissos, mas segundo resposta do SJSP para este meu contato da Redação isso não seria possível, já que ela enfrenta processos na Justiça do Trabalho.

 

Barulho

 

Para concluir, situação difícil e tensa, mas que permite, sim, ações por parte do SJSP, como denúncia ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), se é que já não fizeram, mobilização da categoria para apoiar os colegas e as ações do Sindicato e, principalmente, denunciar esta empresa publicamente, mostrar que o que está fazendo é ilegal, imoral, inaceitável. Para qualquer empresa, opinião pública tem um peso substancial. Ah, nenhum veículo de comunicação vai publicar? Creio que não, mas para que servem os sites, jornais e rádios de entidades sindicais, os blogueiros e as redes sociais? Então, vamos fazer barulho?

 

Sheherazade e as desigualdades entre homens e mulheres no Jornalismo

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Além do evidente uso inadequado de uma concessão pública de TV em claro desrespeito aos direitos humanos, o recente episódio envolvendo a apresentadora- âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, me fez pensar sobre as condições de desigualdade profissional entre homens e mulheres jornalistas, evidenciadas pelo uso estereotipado e machista da imagem da mulher no telejornalismo brasileiro. Assim como Rachel, a quase totalidade das colegas que trabalham em telejornalismo no Brasil são jovens, brancas, magras e com cabelos lisos (ou alisados). E pior, mesmo nestas condições, normalmente se sentem vitoriosas pela “conquista profissional”.

Embora outras “qualidades”, como formação, experiência e ética possam chamar a atenção de qualquer “chefe”, sabemos que o que pesa mesmo na hora da escolha é o padrão visual, principalmente para as apresentadoras dos telejornais. São os apresentadores (homens e mulheres) que permanecem por mais tempo na tela, têm a missão de prender a atenção do telespectador, garantir boa audiência e, por consequência, atrair anunciantes. Só que o padrão visual é exigência somente para o sexo feminino.

Os jornalistas de TV podem ser mais velhos, com cabelos brancos, calvos e até mesmo “gordinhos”, já que eles, sim, precisam ter boa experiência e conteúdo, para transmitir confiança e credibilidade ao telespectador. Não que elas (jornalistas de TV) em geral não tenham esta qualificação também, algumas vezes têm até mais que eles, mas, como já disse, na maioria das vezes não é o que prevalece para a escolha nem para a permanência no cargo.

Visual apelativo

Há tempos venho observando as roupas das apresentadoras de telejornais, muitas vezes justas demais, brilhantes, saias curtas com pernas cruzadas e blusas decotadas, sem contar a maquiagem, por vezes também muito pesadas, evidenciando um modelo de sensualidade apelativo e em absoluto desrespeito com uma categoria profissional e com as telespectadoras. Já eles, os colegas, sempre de roupa social (terno e gravata) ou esportiva (calça jeans, camisa pólo e tênis), no caso dos que cobrem esportes.

Dessa maneira, temos um perfil predominante de profissional feminino no telejornalismo muito mais visual do que técnico, que possivelmente em muitos casos (que pode ou não ser o de Rachel) não reflete mesmo sobre o conteúdo ou prefere, conscientemente, ler um editorial recheado de preconceito social e racismo do que adotar uma posição mais crítica e colocar em risco sua posição na emissora. Se ela mesma pode pensar assim, não sei, mas pode ser também, já que muitos colegas (homens e mulheres) entram e saem da faculdade de Jornalismo sem assimilar conceitos básicos de Humanidade ou Ética Profissional, afinal, ao mercado empresarial isso não tem peso significativo, infelizmente. E pra piorar, muitas vezes acabam incorporando a linha editorial do veículo de comunicação no qual trabalham.

Emissoras são responsáveis

De qualquer jeito, penso que a grande responsabilidade, em todos os sentidos, é das emissoras de TV, seja pelo conteúdo editorial veiculado, seja pela desigualdade de condições de trabalho que desfavorece as mulheres jornalistas. E a desigualdade enfrentada pela mulher no Jornalismo (isso inclui todas as mídias e também as agências de comunicação e assessoria de imprensa) não se restringe ao “papel que ela tem de assumir em frente às câmeras”, mas em todos os sentidos.

Além da condição de desigualdade para ir ao mercado de trabalho, comum às mulheres de qualquer profissão, aliás, já que lhes cabe mais responsabilidades com filhos, casa e idosos, as jornalistas (embora maioria e, em média, com mais qualificação) recebem salários menores que os colegas e ocupam bem menos cargos de chefia (veja pesquisa recente). É, a gente precisa refletir mais sobre isso, colega, e contrapor esta realidade dia-a-dia, até que seja alterada, não aceitando, por exemplo, esse padrão visual feminino do telejornalismo, extremamente desigual, preconceituoso e machista.

E aos telespectadores, um convite: rejeite este modelo, boicote, proteste! Porque, afinal, eles justificam o que passam na TV dizendo que é o que somos, o que queremos. Então precisamos dizer que isso é passado, que não somos mais assim. Enquanto sociedade, estamos em transformação, é verdade, e sempre estaremos, por isso não podemos ficar presos no tempo. Reforçar modelos ultrapassados e preconceituosos, que não mais condizem com a realidade, é no mínimo desrespeitoso e nada inteligente, não acha?

Polícia impede acesso da Imprensa a Boletins de Ocorrência de chacinas que mataram 12 em Campinas

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Há suspeita de que crimes tenham sido praticados por policiais. Chacinas ocorreram na região do Ouro Verde, horas depois de um PM ter sido morto em uma suposta tentativa frustrada de assalto na mesma região

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A Polícia civil impediu o acesso da Imprensa aos Boletins de Ocorrência (BOs) de chacinas que provocaram a morte de 12 pessoas em bairros da região do Ouro Verde, em Campinas (SP), entre a noite de domingo (12) e a madrugada desta segunda (13/01). A negativa de acesso a estas informações públicas, como de costume, aos repórteres que fazem a cobertura policial na cidade, desperta ainda mais suspeitas contra a Polícia (corporação), já que policiais estão entre os suspeitos de autoria das chacinas.

Conforme noticiado pela Imprensa, as chacinas ocorreram horas depois de um policial militar ter sido morto em uma suposta tentativa de assalto a um posto de gasolina na mesma região. Segundo relatos de testemunhas, os assassinatos em grupo foram praticados por homens encapuzados, trajando “capas estilo militar”, que chegaram em dois carros. No bairro Vida Nova, os assassinos teriam pedido que algumas crianças entrassem para dentro de uma casa antes de fazerem os disparos contra um grupo de jovens que estavam na calçada.

Passagem pela Polícia

Entre as primeiras informações dadas pela Polícia em coletiva à Imprensa, na manhã desta terça (13), está a de que pelo menos a metade dos mortos já identificados nas chacinas tem passagem pela Polícia, evidenciando a tentativa de “justificar” as mortes (lembrando a máxima de Maluf, pai da Rota, de que “bandido bom é bandido morto”) e amenizar a indignação das pessoas em geral. Mas claro que a indignação da classe média e alta, em sua maioria absoluta, não vai além de um “nossa, que horror!”, já que morto da periferia (bandido ou não) não tem, nem de perto, o mesmo valor de morto de bairro nobre.

Como bem lembrou um colega jornalista, há poucos meses uma onda de assaltos em Barão Geraldo (distrito universitário, classes A e B) e um deles, em especial, que levou à morte uma professora, provocou uma série de reportagens na Imprensa e reforço do policiamento no local. Quais serão, então, as ações imediatas da Polícia comandada por Geraldo Alckmin (PSDB) na região onde foram assassinadas 12 pessoas em poucas horas? Certamente, bem diferentes, já que a região do Ouro Verde, uma das mais populosas da cidade, é também uma região periférica e pobre.

Ainda mais, depois que alguns ônibus foram incendiados no Vida Nova (um dos locais das chacinas), nesta terça (13), possivelmente como forma de protesto pelas execuções em grupo, exatamente como vêm ocorrendo na Região Metropolitana de São Paulo.. Um outro colega da Imprensa local chegou a sugerir à PM que não chegasse “quebrando tudo” para coibir as depredações de ônibus, ciente de que este é o comportamento costumeiro da Polícia nestes casos.

Policiais investigando policiais ?!?

O Comando da Polícia também disse, via Imprensa, que as investigações das chacinas seriam comandadas por 5 delegados e, como reforço, também estaria vindo de São Paulo uma equipe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), já que Campinas não tem uma Delegacia de Homicídios. Compreendo que a Polícia tem de fazer o papel dela, de investigar crimes, mas neste caso, em que há suspeita de envolvimento de policiais, como acreditar que esta investigação, conduzida por policiais, será minimamente isenta? Necessária e urgente a intervenção do Ministério Público e de órgãos de Direitos Humanos para que os fatos sejam apurados de forma independente, já que ao DHPP também caberia um R no final, pois costuma ser mais útil na proteção de pessoas ricas.

Volto agora a me debruçar ao fato da Polícia ter negado acesso da Imprensa aos BOs das chacinas, o que nos remete ao período da Ditadura Militar no Brasil, em que a Imprensa tradicional passou a ser mera divulgadora de releases (textos prontos) do governo (militar) e receitas de bolo. Um período em que direitos básicos, entre eles o direito à informação, foram negados, e a barbárie tomou as ruas, como bem sabemos. Concluo que, enquanto os militares (que carregam os mesmos princípios que tinham na época da “revolução”) estiverem nas ruas, executando função que cabe à uma guarda civil, os direitos humanos não serão respeitados plenamente.

Mais do que tudo, é preciso agir na causa.. são necessárias e urgentes também mudanças na Polícia e na política de segurança pública do País, mas, para isso, é preciso muita Coragem! Clamo por isso, ansiosamente.

Foto: Marcelo Camargo/ ABr (Audiência Pública, em janeiro de 2013, sobre violência na periferia de São Paulo)

Fotos de velório de vítimas das chacinas. Por Leandro Ferreira–  https://www.facebook.com/fotografoleandroferreira/media_set?set=a.671953989522327.1073741904.100001231963459&type=1

 

Greve na EBC: muito além da defesa de direitos dos trabalhadores

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Assembleia EBC 5.11.13 GREVE!

Em assembleia, na terça (5/11), trabalhadores da EBC decidem pela greve

A greve dos trabalhadores da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que deve começar nesta quinta (7/11), vai muito além da defesa dos direitos dos trabalhadores, o que já não é pouco, claro. É que as coisas estão intimamente ligadas. Como empresa pública, a missão de levar à população informação independente, cultura e entretenimento de qualidade deve servir de exemplo para as empresas privadas de comunicação. Só que sem respeito aos direitos e valorização dos trabalhadores, esta tem se tornado uma Missão (quase) Impossível.

Sem aumento real (além da correção inflacionária) desde 2010, os trabalhadores rejeitam a proposta da direção da empresa, de 0,5% neste ano e outros 0,5% em 2014. Além disso, acusam imposição da empresa pela retirada de cláusulas sociais (direitos já adquiridos), acúmulo e desvio de funções. “A falta de investimentos em estrutura e em quem faz a comunicação pública gera problemas, como os verificados recentemente na transmissão do pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff, no dia 21 de outubro, e na retransmissão da entrevista de Marina Silva ao Roda Viva para o resto do Brasil, no mesmo dia”, alertam os colegas em Carta Aberta.

Os trabalhadores criticam, com toda a razão, o fato do governo federal, por meio da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) não ter repassado à EBC o equivalente a mais de R$ 200 milhões. Segundo eles, este valor se refere à Contribuição para o Fomento à Radiodifusão Pública, “obtido a partir de uma taxa paga do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações, hoje sob questionamento judicial” que, em vez de ser aplicado como deveria, teria sido destinado ao pagamento de superávit primário.

Enquanto isso, muitos outros milhões são investidos pelo governo em publicidade nas grandes empresas de comunicação privadas, como a Rede Globo e a Editora Abril, que têm altíssimas taxas de lucro como único norte (ao extremo sul está o interesse público). Como se vê, apoiar esta greve não significa somente defender uma categoria (jornalista), já tão precarizada e desvalorizada pelo setor privado, mas também os direitos e interesses de toda a população.

A Carta Aberta da Comissão de Empregados da EBC, datada de 5 de novembro, já tem assinaturas dos Sindicatos dos Radialistas e de Jornalistas do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo, e está aberta a novas adesões. Confira, a seguir, a íntegra do documento.

 

TRABALHADORES DA EBC EM GREVE

Carta aberta ao governo federal e à sociedade brasileira

 

Nós, trabalhadores da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em campanha salarial para o fechamento do Acordo Coletivo 2013/2014, aprovamos, em assembleia realizada neste dia 5 de novembro, uma greve com início marcado para a próxima quinta-feira (7/11), a partir das 16h. Este recurso é necessário frente à postura da direção da Empresa e do governo de não responder satisfatoriamente às reivindicações dos trabalhadores e de impor a retirada de direitos.

 

Antes de tudo, esta é uma mobilização em defesa da comunicação pública. Não nos perfilamos junto dos que querem minar esse patrimônio do povo brasileiro, que garante informação, cultura e entretenimento voltados ao interesse público. Ao contrário, entendemos que esse direito da população, o direito à comunicação, só pode ser assegurado com fortes investimentos em empresas públicas de comunicação, fundamentalmente na EBC. Esta é, pela legislação, a figura central do sistema público criado pela Constituição Federal de 1988. Temos clareza que esse direito não será assegurado pelo setor privado, hoje dominado por poucos conglomerados que usam a mídia para a busca do lucro e para atender aos próprios interesses. E que atacam a comunicação pública cotidianamente.

 

Para fortalecer o sistema público, é preciso aumentar os investimentos em infraestrutura, produção de conteúdo e, mais importante, na valorização do principal patrimônio da empresa que são os seus trabalhadores. Mas não é isso que vem ocorrendo. A falta de investimentos em estrutura e em quem faz a comunicação pública gera problemas, como os verificados recentemente na transmissão do pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff no dia 21 de outubro e na retransmissão da entrevista de Marina Silva ao Roda Viva para o resto do Brasil no mesmo dia. Repetimos: não estamos entre aqueles que usam esses casos para apontar a comunicação pública como ineficiente, mas entre os que veem a necessidade de mudar o patamar de investimentos para garantir que eles não ocorram novamente.

 

Questionamos como é possível neste momento que uma parte da Contribuição para o Fomento à Radiodifusão Pública (obtidas a partir de uma taxa paga do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações, hoje sob questionamento judicial) liberada pela operadora TIM, no valor de mais de R$ 200 milhões, seja travada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), vinculada ao governo. Não admitimos que esse dinheiro, quando recebido, seja destinado ao pagamento de superávit primário ou que não seja considerado recurso adicional para a EBC. Se os mais de R$ 200 milhões da TIM forem destinados ao fomento à radiodifusão pública como previsto, a Empresa Brasil de Comunicação pode avançar na garantia da sua autonomia, livre das pressões governamentais ou privadas. Por isso exigimos que o governo federal mude de política para assegurar que esse recurso seja destinado para investimentos na comunicação pública, como os demais recursos do país devam ser voltados aos demais serviços públicos, como exigiram as ruas nas manifestações de junho.

 

Os recursos para o Fomento à Radiodifusão Pública, obtidos a partir de uma taxa paga do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações, no entanto, não podem substituir as verbas orçamentárias destinadas à EBC. Ao contrário, devem se somar a estas. Montante que deve assegurar a valorização dos trabalhadores por meio do atendimento de suas reivindicações. Depois de dois anos sem ganhos acima da inflação, a empresa e o governo oferecem 1% em um acordo de dois anos. Dividido pelos quatro anos da gestão de Nelson Breve, teríamos apenas 0,25% de ganho real em cada ano. Percentual insuficiente para melhorar os baixos salários da empresa.

 

A oferta na mesa avança pouquíssimo nos benefícios, trazendo vales que não foram reivindicados. Queremos a incorporação desses vales no salário. Ou, afinal, não são esses ganhos que, segundo o próprio governo, são responsáveis por manter o crescimento da economia brasileira?

 

Mas essa não é uma mobilização só por ganhos financeiros. Ela é por direitos. Garantias que o Ministério do Planejamento e a direção da EBC querem nos tirar, inclusive aquelas que não dependem de recursos financeiros. É o caso do estabelecimento de um percentual mínimo de chefias concursadas, da correção de casos de acúmulo e desvio de função ou da organização de políticas de formação interna. Ou seja, não é apenas uma questão de falta de recursos, é uma posição política de ataque aos direitos dos trabalhadores. Além disso, a diretoria da empresa segue desrespeitando as leis que regulamentam nossas profissões e permite o assédio moral como método para impor ataques aos direitos dos trabalhadores.

 

Frente a esse quadro preocupante, cobramos do governo e da direção da EBC o atendimento de nossas reivindicações. Sem a valorização de quem faz a comunicação pública, continuaremos sendo questionados e seguiremos sem assegurar nossas obrigações constitucionais e legais de prover ao povo brasileiro uma alternativa de informação, cultura e entretenimento voltados ao interesse público, instrumentos essenciais ao próprio desenvolvimento da democracia em nosso país.

 

Trabalhadores da EBC reunidos em Assembleia no dia 5 de novembro de 2013.

 

Sindicatos dos Radialistas e Jornalistas do DF, RJ e SP

 

Comissão de Empregados da EBC

 

Aberto à adesões

 

Sinônimo, subjetividade ou manipulação? A palavra que faz a diferença

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Presidente Dilma Rousseff, na foto de Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Presidente Dilma Rousseff, na foto de Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

A presidente da República Dilma Rousseff e o seu governo foram vítimas de “bisbilhotagem”, como diz a Rede Globo, ou de “espionagem” pelo governo dos EUA, como dizem outros veículos de comunicação? Quem vai decidir sobre os embargos infringentes no caso dos réus do “Mensalão” é o Ministro Celso de Mello, como diz a Rede Globo, ou o STF (Supremo Tribunal Federal), um colegiado de juízes, como noticia o Jornal do Brasil? À grosso modo, parece tudo a mesma coisa, mas pra gente que é jornalista, profissional de comunicação, ou tem um olhar um pouco mais apurado, sabe que não.

E a gente sabe que, muitas vezes, apenas uma palavra diferente no título de uma reportagem impressa ou na chamada de uma notícia de Rádio ou TV pode fazer toda a diferença e influenciar na interpretação do fato, assim como a escolha dos entrevistados, os cortes de edição, etc.. Mas, será que essa “palavra diferente” é um sinônimo ou uma interpretação subjetiva de um fato? Penso que em alguns casos, uma simples consulta ao dicionário pode responder a esta pergunta. Em outros, é mais complexo, envolve contexto, história e, acima de tudo, conhecimento dos interesses dos envolvidos, especialmente do veículo de comunicação que traz a notícia. E a maioria da população não faz esta leitura.

E será que em alguns casos isso pode ser um mero erro jornalístico ou decorre mesmo da posição política daquele veículo de comunicação? Acredito que a probabilidade de erro é infinitamente menor, mas pode ser induzida, na medida em que muitos colegas acabam sendo influenciados pela linha editorial do veículo aonde trabalha e chegam, muitas vezes, a acreditar e propagar como verdade, digamos, aquela “versão” dos fatos.

Contudo, inegável é a posição política do veículo de comunicação em alguns casos, como nos exemplificados no início deste texto. E considero que todos os veículos de comunicação podem ter uma posição política, desde que a assumam publicamente. O que não é mais aceitável é o mesmo que, aliás, usufrui de uma concessão pública, se dizer independente, imparcial, a serviço exclusivamente do interesse público, quando está muito mais, acima de tudo, preocupado em defender seus próprios interesses e/ou daqueles a quem representa. E entre estes representados, certamente o povo não está nem mesmo entre os três primeiros da lista.

Erro

Fico a pensar se daqui a algumas décadas, quando, possivelmente, a população em geral tenha mais clareza desta situação, a qual considero uma manipulação covarde dos fatos, a Rede Globo vai assumir este erro, como O Globo (jornal das Organizações Globo) fez agora, recentemente, com relação a seu apoio aos militares durante a Ditadura? Quem sabe? Mas ainda não consigo vislumbrar este horizonte, ainda mais quando a Democratização da Mídia, que permitiria dar fim a monopólios como o das Organizações Globo, ainda está longe de ser concretizada.

A sutileza com que manipula também lhe permite se apoiar em discursos evasivos e retóricos que, vindo da “toda poderosa”, soam como verdade à maioria da população. E, embora a Internet, com blogs independentes e as redes sociais, contribuam para uma interpretação mais aprofundada, ela ainda é restrita a certa parcela da população e é um espaço muito disputado, inclusive por eles, os donos da Mídia.

Fake do CQC faz a festa na Câmara de Campinas

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Essa eu tinha que contar, gente. Logo saberão que terá valido a pena ler este post. Um rapaz, trajado à caráter e acompanhado de um cinegrafista, se apresentou como repórter do programa humorístico CQC e, literalmente, fez a festa na Câmara Municipal de Campinas (SP), na terça (3 de setembro). A cara de pau foi tamanha, que ele chegou a entrevistar alguns vereadores e gravou passagens pelos corredores do Legislativo campineiro, sem qualquer dificuldade.

Terno e gravata, óculos escuros, microfone com logotipo do programa. Tive informação de que até mesmo o carro que eles utilizaram para entrar no estacionamento da Câmara estava adesivado com logo da BAND (emissora de TV que veicula o programa). Credenciais, certamente não tinham, mas isso não foi problema já que ninguém deve ter pedido.

Mais Médicos

Ouvi dizer que assessores de outro gabinete também desconfiaram e descobriram o golpe, mas vou contar como foi meu contato com o digníssimo rapaz. Na noite anterior e na manhã daquele dia, ele, que se identificou como “repórter da Band”, telefonou para o gabinete do vereador que eu assessoro, dizendo que queria marcar entrevista para falar sobre o “Programa Mais Médicos”. Como eu não estava, a secretária lhe deu meu celular para que ele falasse diretamente comigo.

Não me ligou. Intrigada, telefonei para a BAND Campinas e perguntei aos colegas se algum deles tinha me ligado, mencionei o nome que o “repórter” havia deixado: Adalex. Não tinha ninguém com este nome na equipe. Eis que logo em seguida a figura adentra no gabinete, escondendo o logo no microfone, mas quando disse que tinha ligado na BAND Campinas acabou revelando que, “na verdade”, era do CQC. Questionei, então, do porquê de terem escolhido Campinas para repercutir um assunto nacional. Respondeu que a Produção tinha enviado algumas equipes para variadas cidades com esta pauta.

Engasgada

Ok, pedi, então, seus contatos (telefone e e-mail) para que eu pudesse retornar sobre a possibilidade da entrevista. “Adalex” me forneceu um celular via Rádio (Nextel). Pra confirmar, perguntei se o DDD era 11, já que o Programa é produzido em São Paulo. Foi aí que o descolado “repórter do CQC” deu uma engasgada, seguida da desculpa esfarrapada de que a produção era de Campinas. Pedi também, mas ele disse que não tinha, telefone e e-mail da produção em São Paulo, para que eu acrescentasse ao meu mailing. O rapaz desconversou e foi saindo de fininho.

Ah, já quase certa de que se tratava de engodo, liguei na BAND São Paulo, aonde me passaram o telefone da Produção do CQC. Em contato com eles, confirmei que não tinham enviado nenhuma equipe para Campinas naquele dia e também não mantinham nenhuma Produção na cidade. Confirmado o golpe, saí pra dar uma volta pelas dependências da Câmara na tentativa de reencontrá-los, mas já tinham ido embora, claro.

No dia seguinte, soube que, questionado por meio do telefone que deixou comigo, o rapaz alegou que estaria fazendo um teste “secreto” para o CQC, cuja produção estaria planejando mudanças e novas contratações para a equipe. Tá, tão secreto que acho que só ele mesmo sabe disso.

Jornalista

Também soube que o rapaz foi identificado como ex-aluno da PUC-Campinas, recém formado em Jornalismo. Aí, fica a curiosidade sobre este episódio “interessante”. Suponhamos que fosse verdade a “justificativa” dele, por que não se apresentou e falou o que pretendia? Eu e creio que vários colegas não lhe negariam acesso aos vereadores para fazer o seu “teste”, pois que com frequência atendemos pedidos até mesmo de estudantes de Jornalismo. E se a “justificativa” for mentira, assim como a que pregou na Câmara, por qual motivo ele teria feito isso e como pretendia ou ainda pretende usar o material gravado?

E, pra finalizar, já que falamos de jornalista para jornalista, proponho aqui a reflexão: Mesmo que para os moldes bem humorados do CQC, você não acha que este novo colega faltou com a ética ao mentir sobre sua identidade e intenções? Abraço e boa semana!

Ah, quem quiser conferir o vídeo do CQC, o verdadeiro, sobre o Programa Mais Médicos, segue o link: http://bit.ly/15ACnNS

 

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