As frustrações e alegrias de ser jornalista

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Excluídos

Parte da capa de “Excluídos- o não jornal” (maio de 1996), publicação independente de um grupo de estudantes de Jornalismo da PUC-Campinas, do qual me orgulho de ter participado. Foto: Rossana Lana

Ser jornalista é..

trabalhar muito ganhando pouco ou até mesmo nada, uma vez que, hoje em dia, é comum empresas jornalísticas atrasarem o pagamento de salários e benefícios sob argumento de “dificuldades financeiras” (paga suas contas atrasadas e com juros, mas o carrão importado e a viagem internacional do patrão estão em cima!);

ter absoluta consciência da precarização do seu trabalho para manter os altos lucros do patrão, ser “o portador” da notícia, mas, não sendo “o dono da caneta”, se ver impedido de reportá-la (já que o interesse público só vai até onde não conflite com os interesses do empresariado);

vivenciar situações rotineiras de assédio moral e sexual, perder momentos importantes da vida de seus filhos e familiares sem demonstrar sentimentos (afinal, Jornalismo não é para fracos!);

ser pressionado/a diariamente (às vezes até ameaçado/a), por todos os lados, do patrão/ anunciante a algumas fontes de informação (já que todo mundo quer se dar bem, sair bem na fita e você, mero/a operário/a da imprensa, não pode atrapalhar!);

lidar, em cada matéria, com o conflito entre o que acredita, o que o patrão quer/espera (linha editorial) e o que o leitor/ telespectador/ ouvinte merece (já que um fato pode ter N interpretações);

sentir dor física e moral. Como a visão do patrão costuma prevalecer, caso não seja a mesma do colega a frustração aflora e, acompanhada de toda essa situação cotidiana, provoca estresse, depressão e outras doenças, podendo levar à morte;

Mas, ser jornalista também é..

Sentir a adrenalina da investigação, do furo, do poder de mostrar a coisa errada, desonesta;

Ter o prazer de colaborar (mesmo que só um pouquinho, como grãos de areia) com a conscientização das pessoas sobre valores humanos, justiça, cidadania, mostrar histórias que emocionam e que nos fazem pensar;

Ser persistente e convicto/a. Mesmo vivendo sua frustração cotidiana, encarar cada nova pauta como um desafio de ir mais a fundo, fazer melhor, convencer todo mundo de que a sua história merece a capa, a chamada principal;

Ficar feliz e orgulhoso/a em ver sua assinatura naquela matéria que as pessoas pararam pra ler/ ver/ ouvir e pensar sobre algo que lhes passaria despercebido ou que jamais teriam condições de saber por conta própria;

Sim, apesar de tudo, SER JORNALISTA ainda vale a pena!

#7deAbril  #DiaDaJornalista

Blogueir@s apontam necessidade de rede de apoio e financiamento

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1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (3)

Blogueiros e ativistas da região de Campinas expõem dificuldades e desafios

Participantes do 1º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de Campinas e Região apontaram a necessidade de criação de uma rede de apoio e financiamento, que viabilize a execução de suas atividades com o mínimo de tranquilidade e segurança. Além do patrocínio, essa rede incluiria apoio jurídico e a valorização dos conteúdos produzidos por esses comunicadores, que podem contribuir muito com os movimentos sociais de esquerda e a classe trabalhadora da Região Metropolitana de Campinas (RMC).

De fato, não falta gente interessada e comprometida nem mesmo espaço, já que os tradicionais sites de notícias da região são bem poucos e muitas vezes deixam a desejar em qualidade e representatividade da maioria da população, composta por trabalhador@s, mulheres e negr@s. Na pauta desses veículos de comunicação, via de regra os interesses do grande empresariado se sobrepõem aos da maioria e, muitas vezes, o que vemos são fatos distorcidos e desrespeito aos Direitos Humanos.

1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (5)

Michele da Costa: Blog da Mi e Coletivo Jornalistas de Campinas e Região

O Encontro foi realizado dia 25 de março, pela Adunicamp (Associação dos Docentes da Unicamp) em parceria com o site Carta Campinas e o Barão de Itararé. Participei da Mesa da tarde, enquanto mediadora, blogueira e representante do Coletivo Jornalistas de Campinas e Região, por isso não pude deixar de falar sobre a precarização das condições de trabalho dos jornalistas, iniciada muito antes da “lei da terceirização”, que prefiro chamar de legalização da precarização.

Além disso, com as demissões em massa nos veículos de comunicação tradicionais nos últimos anos, a internet tem se tornado um novo campo natural para o trabalho de muitos jornalistas, que investem em sites e blogs de informação e opinião, mas quase sempre esbarram na dificuldade em obter patrocinadores e/ou anunciantes. Se tem posicionamento político de esquerda, então, fica ainda mais difícil. Daí a oportunidade de investimento para movimentos sociais, entidades e pessoas que desejam a ampliação de uma rede de informação qualificada, classista e, no caso de Campinas, voltada aos acontecimentos regionais, o que seria uma grande e boa novidade.

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Paulo San Martin (Adunicamp) fala sobre proposta de central de compartilhamento

Nesse contexto, a Adunicamp apresentou a proposta de criação de uma rede de compartilhamento de conteúdo para blogueir@s, em desenvolvimento por meio de parceria com professores do Instituto de Computação da Unicamp. Os participantes demonstraram interesse e fizeram sugestões de possíveis ajustes.

Entre os participantes da Mesa, Elias Aredes (Bola com Gravata e Só Derbi), Lucas Santana e Paola (Bonde Mídia), Júnior (Socializando Saberes), José (Galoá Journal), Gilberto Gonçalves (Jornal Alto Taquaral) e Sérgio (Advogados Independentes Campinas). Rodrigo Grassi, do Botando Pilha, também contribuiu com uma exposição inicial. Na parte da manhã, o evento contou com um bom público, que compareceu para prestigiar os convidados Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Aparecido Araújo Lima (Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé) e Glauco Cortez (Carta Campinas).

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Mesa da manhã (da esquerda para a direita): Glauco Cortez, Eduardo Guimarães, Paulo Henrique Amorim e Aparecido Araújo Lima

1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (1)

Plateia acompanha apresentação de convidados durante a manhã

Fotos: Véronique Hourcade

Nacionalismo, jingles chiclete e o grande golpe contra os trabalhadores

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Rovena Rosa. Agência Brasil

Jovem torcedor (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Enquanto os olhos e corações dos brasileiros naturalmente se voltam para os Jogos Olímpicos do Rio, embalados por narrações emotivas e jingles chiclete de grandes patrocinadores, as articulações do setor empresarial e seus aliados políticos para a redução de direitos sociais e dos trabalhadores avançam sorrateiramente no Congresso Nacional. Até esse recente episódio da novela do Impedimento da presidenta Dilma (mesmo sem crime de responsabilidade), com o já mega esperado prosseguimento pela votação, se sobrepõe no cenário nacional ao assalto pretendido contra a maioria esmagadora da população, a classe trabalhadora, esse sim, o grande golpe em curso programático e silencioso no nosso País nos últimos anos.

Quando aparece, é como algo natural, um pequeno sacrifício que todo cidadão precisa fazer para tirar o país da crise. Mas não é coincidência que isso apareça com mais força nesse momento. O nacionalismo exacerbado sempre acompanha processos históricos de disputa pelo poder. Se pode vir acompanhado de uma grande festa e heróis nacionais, melhor ainda! A torcida que ocupa hoje estádios e arenas dos jogos olímpicos veste a mesma camisa verde e amarela usada pelos grupos a favor do afastamento de Dilma e “contra a corrupção” nas ruas das grandes cidades e que agora se calam vergonhosamente diante dessa agenda de retrocessos.

Ato 15.3.15 Campinas. Lucas Sampaio

Ato contra Dilma em 2013 (Foto: Lucas Sampaio)

São essas cores também, assim como o azul e o branco, que estampam o lema “Ordem e Progresso” da Bandeira Nacional na propaganda do governo interino de Michel Temer. Ele, que é porta bandeira, não da defesa da soberania nacional, como caberia a um chefe de Estado, mas dos interesses do grande capital, principalmente o internacional. São várias as propostas de alteração de leis que preveem a retirada de direitos sociais e dos trabalhadores, mas os maiores destaques da recente agenda empresarial no Congresso são os PLs 4193/2012 e 4962/2016, como bem colocou Marilane Teixeira, em artigo veiculado no início de agosto no site do Sindicato dos Químicos de São Paulo.

Pelegos de plantão

Ambos Projetos querem a prevalência do “negociado sobre o legislado” sobre itens previstos na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), ou seja, se em acordo coletivo com o empregador a categoria de trabalhadores aceitar reduzir alguns desses direitos, como parcelamento de férias, redução de adicionais e horas extras, essa negociação prevalecerá sobre a legislação. Daí tem gente que vai dizer, mas será que essa negociação também poderia favorecer os trabalhadores? Bem, se a ideia fosse favorecer trabalhador nada precisaria ser alterado e nem seriam os patrões os articuladores disso, já que a função dos acordos coletivos são unicamente ampliar direitos, nunca suprimir.

Tanto que se, por vezes, um acordo celebrado rebaixa um item previsto na legislação, é certo que rende indenização via Justiça trabalhista. O curioso é que o discurso do interino Temer e sua trupe no Congresso, pra tentar justificar essa barbárie, além da “necessidade de flexibilizar direitos para promover a geração de empregos”, destaca a intenção de “dar mais poder aos sindicatos”! Faz-me rir! Sim, para sindicatos com dirigentes pelegos seria um prato cheio.

A Força Sindical, por exemplo, já disse, nessa notícia de O Globo, que não irão se colocar contra a reforma (trabalhista), “desde que a proposta seja pautada pelo fortalecimento da negociação coletiva”. Ele (João Carlos Gonçalves- Juruna) destacou que em outros países não existe uma CLT como no Brasil, apenas uma legislação básica. Mas, isso não impede uma boa relação entre capital e trabalho (…)”. Óbvio que a intenção é diametralmente oposta, na verdade querem reduzir o poder e representatividade dos sindicatos, enfraquecer as categorias e, por consequência, toda a classe trabalhadora.

Flexibilizar = precarizar

Na prática, quando dizem “flexibilizar”, leia-se reduzir, precarizar. Quanto à gerar empregos, é possível, mas precários e com salários rebaixados, haja vista o PL da Terceirização (4330) no Senado, já aprovado na Câmara Federal, que permite contratações de trabalhadores como pessoas jurídicas, mantendo a relação de trabalho, mas sem os direitos trabalhistas e ainda impondo o custeio de impostos empresariais. A categoria de jornalistas é um bom exemplo da imposição da terceirização e a precarização consequente, há anos, bem antes de se propor essa “legalização”, que veio justamente para tentar evitar as despesas dos empresários com indenizações obtidas via judicial.  

No fim das contas, as empresas querem se tornar mais competitivas e lucrativas, reduzindo o custo com mão-de-obra, ou seja, aumentar seu capital às custas do trabalhador, que passa a produzir mais por menos ($). O trabalhador só perde: renda, qualidade de vida e, a médio prazo, a saúde. Nesse artigo para a Revista do Brasil, o economista Marcio Pochmann adverte para outra consequência dessa agenda: “Com menor rendimento e maior flexibilidade contratual, os trabalhadores consomem menos ainda, fazendo contrair, em consequência, o consumo. E, por sua vez, a provocação da queda da demanda na economia como um todo, fazendo aumentar o desemprego da força de trabalho. Retrocesso em cima de retrocessos.”

Concluindo; nem mesmo a recuperação da economia estaria garantida com essa cruel lógica neoliberal. Então, com todo o respeito aos atletas brasileiros que cumpriram seu papel nessa Olimpíada, ganhando medalhas ou não, acho que o momento exige menos idolatria a uma bandeira e outros símbolos nacionalistas e mais reflexão e mobilização pela garantia de direitos e um projeto de País que contemple as necessidades de todas as pessoas.

 

Debate sobre violência contra jornalistas expõe omissão de empresas de comunicação, da Polícia e do Estado

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Band TV figurou como vítima no episódio da morte do cinegrafista Santiago Andrade; policial autor do disparo da bala de borracha que cegou o repórter fotográfico Sérgio Silva ainda não foi identificado

Debate SPL SP 21.8 (5)

‘Tiro, porrada e bomba: violências contra o jornalismo e os jornalistas’ foi o tema do debate realizado pelo Coletivo de Jornalistas Sindicato É Pra Lutar!, dia 21/8

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, durante a cobertura de um protesto no Rio, em fevereiro deste ano e outros casos recentes foram relembrados no debate ‘Tiro, porrada e bomba: violências contra o jornalismo e jornalistas’, realizado na capital, quinta (21/8), pelo Coletivo de Jornalistas do estado de São Paulo Sindicato É Pra Lutar! (SPL). E que bom! Esses casos merecem ser lembrados porque não tenho dúvida de que nem todos os culpados foram responsabilizados, ao menos aos olhos da opinião pública, não mesmo.

 

Embora não seja ela quem acendeu e/ou atirou o explosivo que atingiu o cinegrafista Santiago Andrade, a Rede Bandeirantes de Televisão também pode ser responsabilizada pela morte dele, assim como de seu outro cinegrafista (Gelson Domingos da Silva), atingido durante tiroteio em favela do Rio, em outubro de 2011. Ambos pela falta de, ao menos, treinamento, equipamentos e condições de segurança adequados para o trabalho em coberturas jornalísticas de risco. Sem isso, esses colegas contaram apenas com a sorte, como muitos de nós contamos no nosso trabalho cotidiano!

 

E o que faz a Band? Aliada a todo o clã de emissoras de TV brasileiras que, em maioria, agem da mesma forma irresponsável e omissa com a segurança de seus profissionais de Jornalismo, atacou. Culpou os manifestantes, a Polícia e, principalmente, o governo, jogando pra ele toda a responsabilidade por não garantir a segurança dos jornalistas (mas não qualquer um, claro, dos seus da grande mídia) nos protestos e manifestações de rua.

 

Era o momento das entidades de classe botarem a boca no trombone, e algumas até o fizeram, mas evidente que suas manifestações não ocuparam espaço nem perto de significativo do noticiário da grande imprensa, que estampou como vítimas as emissoras de TV travestidas de ‘Imprensa imparcial a serviço da sociedade’.

 

Entidades se manifestam

 

“Santiago é mais uma vítima da irresponsabilidade das empresas jornalísticas, que se recusam a fornecer equipamentos de segurança, treinamento e estabelecer como regra primordial de segurança o impedimento do profissional trabalhar sozinho”, disse o presidente da ARFOC Brasil (Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos), Luiz Hermano, e o presidente da ARFOC Rio, Alberto Jacob Filho, em nota publicada e disponível no site da ARFOC Rio, dia 10 de fevereiro de 2014, dia em que Santiago morreu.

 

Segundo esta reportagem da EBC (veiculada no Último Segundo), quando Gelson Domingos foi atingido, usava um colete à prova de balas, mas o projétil ultrapassou a proteção. “Para a presidenta do sindicato (dos Jornalistas do Rio de Janeiro), Suzana Blass, a morte do cinegrafista foi uma tragédia anunciada, porque os coletes fornecidos pelas empresas de comunicação não resistem a tiros de fuzil”, informa a reportagem.

 

Nesta entrevista à RádioTube, Jacob Filho relata várias irregularidades cometidas pela Band Rio, como a terceirização de quase todos os profissionais, alguns contratados como radialistas (que têm pisos salarias mais baixos que os jornalistas), profissionais de imagem sendo usados também como motorista e iluminador da equipe. “Sem dúvida nenhuma, a BAND é responsável pelas mortes dos cinegrafistas”, afirma Jacob Filho à Rádio.

 

Policiais são maioria dos agressores

 

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Sérgio Silva, em foto divulgada em seu perfil no Facebook dia 28/6

Embora nos casos de Santiago e Gelson, o que os atingiu não tenha partido de policiais, a maioria das agressões deliberadas (com intenção) contra jornalistas nos protestos de 2013 partiu de forças de segurança (policiais militares e guardas municipais), 55 de 70, conforme pesquisa realizada e divulgada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

 

Durante o debate do SPL, vários outros episódios recentes de violência policial contra jornalistas foram lembrados, como o do repórter fotográfico da Futura Press, Sérgio Silva, e a repórter da TV Folha, Giuliana Vallone, feridos por balas de borracha em cobertura de protesto em São Paulo, em junho de 2013. Em decorrência disso, Sérgio Silva ficou cego de um olho, mas o responsável pela bala que o atingiu ainda não foi sequer identificado.

 

Democracia X Ditadura

 

Entre os debatedores (o tenente-coronel Adilson Paes de Souza e os jornalistas Bruno Paes Manso, Fausto Salvatori e Lúcia Rodrigues) a opinião é de que é possível, sim, identificar o policial que disparou o tiro (assim como qualquer outra agressão), já que todos os policiais que saem para uma operação são identificados e instruídos previamente e respondem a um comando. Lúcia entende que nem os policiais e nem a Polícia agem isoladamente, mas “obedecem a uma política de Estado, que visa a defesa do patrimônio e não das pessoas. Os manifestantes são vistos como inimigos, uma ideologia da ditadura militar”, disse ela.

Debatedores ouvem perguntam da plateia

Debatedores interagiram com a plateia

Como solução, Souza defendeu a desmilitarização da Polícia e, por enquanto, em casos de violência policial que o Ministério Público seja acionado, pois tem a obrigação constitucional de fiscalizar o trabalho da Polícia. Salvatori, do site de notícias http://ponte.org/, mencionou que o Brasil da democracia matou mais jornalistas do que a ditadura militar, segundo dados do Comitê de Proteção a Jornalistas e levantamento da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”, da Assembleia Legislativa de São Paulo: 29 profissionais foram assassinados em represália por seu trabalho, entre 1992 e 2013, contra 12 jornalistas, no exercício da profissão, mortos pelo regime militar entre 1964 e 1985.

 

Bruno Manso,  também do site Ponte, expôs a contradição que há em tempos de internet, mídia ninja e divulgação rápida dos fatos, que, se por um lado agrega o enriquecimento da informação vista por quem é parte da notícia, por outro expõe de forma solitária os comunicadores. “O trabalho do jornalista está bastante precário”, afirmou Manso. O debate foi mediado pelo jornalista Pedro Malavolta, que defendeu ações concretas e permanentes dos sindicatos em defesa da segurança dos profissionais e criticou ações sindicais de aproximação dos jornalistas à Polícia Militar, conforme observado recentemente no Rio Grande do Sul, segundo essa notícia do site Sul21.

* Com informações das jornalistas Luciana Mendonça e Cecília Figueiredo

Para Audálio Dantas, falta coragem dos governos para agir contra abusos da PM

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Da esquerda para direita: Cardoso, Audálio Dantas, Torves (mediador) e Rebelo

Da esquerda para direita: Cardoso, Audálio Dantas, Torves (mediador) e Rebelo

“A PM é uma herança maldita! Raros são os dias em que policiais militares não atiram para matar nas periferias das grandes cidades, fazendo vítimas jovens e negros. Falta coragem dos governos para agir contra isso”, disse o jornalista e escritor Audálio Dantas, durante o 36º Congresso Nacional dos Jornalistas, realizado entre 2 e 6 de abril de 2014, em Maceió (AL). Ele foi um dos convidados para o debate ‘O Jornalismo e a Democracia contemporânea’, dia 4, ao lado de Edson Cardoso, assessor especial da ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, e Aldo Rebelo, ministro dos Esportes.

Aos colegas que não conhecem a história de Audálio Dantas, recomendo a pesquisa. Aos 80 anos de idade, se mostra mais lúcido que muitos jovens adultos. Entre outros feitos, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP) entre 1975 e 1978, período em que a entidade denunciou a omissão das autoridades no caso da morte de Vladimir Herzog (então diretor da TV Cultura de São Paulo), torturado e morto pelos militares. Também presidiu a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj): o primeiro eleito por voto direto, em 1983.

Depois de suas exposições iniciais, Dantas e Cardoso interagiram com a plateia e contribuíram para um bom debate, um dos melhores do Congresso em minha opinião, apesar do que considerei uma falta de respeito do ministro e colega (jornalista) Aldo Rebelo, cujo ministério- dos Esportes- foi um dos patrocinadores do Congresso, assim como a Seppir, entre outros.

Saída à francesa

Rebelo falou à vontade e foi embora sem sequer ouvir as perguntas dos participantes. A justificativa foi que precisava visitar sua mãe. O discurso do ministro foi longo. Ele falou das dificuldades enfrentadas por jornalistas e políticos durante a Ditadura e reclamou de críticas veiculadas pela Imprensa sobre a Copa do Mundo de Futebol da FIFA, que será realizada no Brasil neste ano. Enquanto Rebelo falava, alguns cartazes, com críticas à Copa e/ou à forma como o evento vem sendo viabilizado, foram erguidos na plateia.

Contraditório como justamente em um Painel sobre Jornalismo e Democracia, um dos debatedores da Mesa (o ministro e jornalista) discursa e vai embora, e ainda, na sequência, a direção da Fenaj (realizadora do Congresso) tenta restringir as inscrições para perguntas em apenas três diante de uma fila de pelo menos doze companheiros, a maioria delegados (eleitos pelos sindicatos estaduais para representar a base no Congresso). Sob protestos, mas somente após intervenção de Cardoso (Seppir), acabaram voltando atrás e reabrindo os microfones.

Também coube a Cardoso tentar remediar a ausência do colega do Planalto, sugerindo o envio das perguntas por e-mail. Sem desconsiderar a boa vontade dele, certamente que quem vai a um debate não se conforma em enviar perguntas por e-mail. Cardoso se disse emocionado ao ver o tamanho da fila que se formou rapidamente após as exposições dos debatedores. “Sinal de que as pessoas têm algo a dizer”, disse ele.

Audálio em Campinas

Na próxima quarta (23 de abril), Audálio Dantas participará de debate da Jornada de Jornalismo da PUC-Campinas (Campinas-SP), a partir das 19h30, no Auditório D. Gilberto (Campus I). O tema do debate será o Golpe de 1964.

 

* Com informações do Portal dos Jornalistas (sobre trajetória de Audálio Dantas)- http://www.portaldosjornalistas.com.br/perfil.aspx?id=2494 e do SJSP- Regional Campinas (sobre o debate em Campinas)

Jornal O Vale: quando a ilegalidade vira rotina

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Votação de estado de greve na Redação de O Vale, em janeiro de 2013 (foto extraída do site do SJSP)

Votação de estado de greve na Redação de O Vale, em janeiro de 2013 (foto: SJSP)

O pagamento de salários com atraso, a contratação de jornalistas como ‘freela fixo’ (sem registro em carteira) e contratações por salários abaixo do piso da categoria já viraram rotina no Jornal O Vale, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba (SP). Nos últimos dias, uma pessoa que trabalha na Redação do “digníssimo” periódico me procurou para falar destes problemas, que revelam a precariedade a que são submetidos os colegas lá. Infelizmente, sabemos que esta não é a única empresa que precariza jornalistas, mas nem por isso tais ilegalidades podem ser admissíveis, banalizadas.  

 

Segundo este relato, o atraso no pagamento dos salários teria atingido todos os trabalhadores (310, segundo o site da empresa), mas há outras irregularidades na contratação de jornalistas: maioria dos repórteres contratados como ‘freelancers fixos’ (sem registro em carteira e os direitos previstos na legislação trabalhista, mas com as mesmas obrigações que qualquer outro trabalhador) e com salários muito abaixo do piso da categoria, acúmulo de função e de horas extras não pagas. “O pior é que os editores estão chamando novos profissionais para trabalhar sabendo que a empresa não está conseguindo cumprir os compromissos financeiros”, acrescenta.

 

Em resposta a esta pessoa, a Regional do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo (SJSP) disse que já fizeram tudo que podiam sem a participação dos funcionários, por isso só restaria a greve, já que o atraso no pagamento de salários nesta empresa ocorre há mais de um ano. A empresa alega que não tem dinheiro para honrar seus compromissos e a situação já foi e continua sendo denunciada ao Ministério Público do Trabalho, que aplicou multas, segundo esta resposta do SJSP.

 

Histórico

 

Em uma rápida busca no Google encontrei duas notícias sobre o problema em O Vale (nenhuma em site de empresas jornalísticas, claro). Uma delas no site do SJSP, de 29 de novembro de 2012, fala de uma mesa redonda que aconteceria entre Sindicato e diretoria da empresa, devido ao atraso no pagamento dos salários em 2 meses consecutivos. Já a segunda notícia, veiculada no site da Comunidade JusBrasil, há 1 ano, traz um histórico do caso, que inclui também o jornal Bom Dia (os dois jornais pertenciam à mesma empresa, a Valebravo Editorial, ambos em S. J. dos Campos).

 

O histórico relata uma manifestação conjunta em frente à empresa, realizada por quatro sindicatos (dos Jornalistas, dos Gráficos, dos Publicitários e dos Administrativos), e a realização de uma Mesa Redonda no DRT, que gerou um acordo que não foi cumprido pela empresa. Ainda, conforme esta notícia do JusBrasil, no dia anterior à manifestação os trabalhadores estavam em estado de greve e a direção da empresa teria trancado as portas para impedir que saíssem e participassem da assembleia que decidiria pela paralisação.

 

Há informação também de que aproximadamente a metade da equipe de Redação foi demitida após a mobilização, há mais de um ano. Entre colegas da Redação, há boatos de que a empresa pretende trocar o CNPJ para fugir de seus copromissos, mas segundo resposta do SJSP para este meu contato da Redação isso não seria possível, já que ela enfrenta processos na Justiça do Trabalho.

 

Barulho

 

Para concluir, situação difícil e tensa, mas que permite, sim, ações por parte do SJSP, como denúncia ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), se é que já não fizeram, mobilização da categoria para apoiar os colegas e as ações do Sindicato e, principalmente, denunciar esta empresa publicamente, mostrar que o que está fazendo é ilegal, imoral, inaceitável. Para qualquer empresa, opinião pública tem um peso substancial. Ah, nenhum veículo de comunicação vai publicar? Creio que não, mas para que servem os sites, jornais e rádios de entidades sindicais, os blogueiros e as redes sociais? Então, vamos fazer barulho?

 

Sheherazade e as desigualdades entre homens e mulheres no Jornalismo

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Além do evidente uso inadequado de uma concessão pública de TV em claro desrespeito aos direitos humanos, o recente episódio envolvendo a apresentadora- âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, me fez pensar sobre as condições de desigualdade profissional entre homens e mulheres jornalistas, evidenciadas pelo uso estereotipado e machista da imagem da mulher no telejornalismo brasileiro. Assim como Rachel, a quase totalidade das colegas que trabalham em telejornalismo no Brasil são jovens, brancas, magras e com cabelos lisos (ou alisados). E pior, mesmo nestas condições, normalmente se sentem vitoriosas pela “conquista profissional”.

Embora outras “qualidades”, como formação, experiência e ética possam chamar a atenção de qualquer “chefe”, sabemos que o que pesa mesmo na hora da escolha é o padrão visual, principalmente para as apresentadoras dos telejornais. São os apresentadores (homens e mulheres) que permanecem por mais tempo na tela, têm a missão de prender a atenção do telespectador, garantir boa audiência e, por consequência, atrair anunciantes. Só que o padrão visual é exigência somente para o sexo feminino.

Os jornalistas de TV podem ser mais velhos, com cabelos brancos, calvos e até mesmo “gordinhos”, já que eles, sim, precisam ter boa experiência e conteúdo, para transmitir confiança e credibilidade ao telespectador. Não que elas (jornalistas de TV) em geral não tenham esta qualificação também, algumas vezes têm até mais que eles, mas, como já disse, na maioria das vezes não é o que prevalece para a escolha nem para a permanência no cargo.

Visual apelativo

Há tempos venho observando as roupas das apresentadoras de telejornais, muitas vezes justas demais, brilhantes, saias curtas com pernas cruzadas e blusas decotadas, sem contar a maquiagem, por vezes também muito pesadas, evidenciando um modelo de sensualidade apelativo e em absoluto desrespeito com uma categoria profissional e com as telespectadoras. Já eles, os colegas, sempre de roupa social (terno e gravata) ou esportiva (calça jeans, camisa pólo e tênis), no caso dos que cobrem esportes.

Dessa maneira, temos um perfil predominante de profissional feminino no telejornalismo muito mais visual do que técnico, que possivelmente em muitos casos (que pode ou não ser o de Rachel) não reflete mesmo sobre o conteúdo ou prefere, conscientemente, ler um editorial recheado de preconceito social e racismo do que adotar uma posição mais crítica e colocar em risco sua posição na emissora. Se ela mesma pode pensar assim, não sei, mas pode ser também, já que muitos colegas (homens e mulheres) entram e saem da faculdade de Jornalismo sem assimilar conceitos básicos de Humanidade ou Ética Profissional, afinal, ao mercado empresarial isso não tem peso significativo, infelizmente. E pra piorar, muitas vezes acabam incorporando a linha editorial do veículo de comunicação no qual trabalham.

Emissoras são responsáveis

De qualquer jeito, penso que a grande responsabilidade, em todos os sentidos, é das emissoras de TV, seja pelo conteúdo editorial veiculado, seja pela desigualdade de condições de trabalho que desfavorece as mulheres jornalistas. E a desigualdade enfrentada pela mulher no Jornalismo (isso inclui todas as mídias e também as agências de comunicação e assessoria de imprensa) não se restringe ao “papel que ela tem de assumir em frente às câmeras”, mas em todos os sentidos.

Além da condição de desigualdade para ir ao mercado de trabalho, comum às mulheres de qualquer profissão, aliás, já que lhes cabe mais responsabilidades com filhos, casa e idosos, as jornalistas (embora maioria e, em média, com mais qualificação) recebem salários menores que os colegas e ocupam bem menos cargos de chefia (veja pesquisa recente). É, a gente precisa refletir mais sobre isso, colega, e contrapor esta realidade dia-a-dia, até que seja alterada, não aceitando, por exemplo, esse padrão visual feminino do telejornalismo, extremamente desigual, preconceituoso e machista.

E aos telespectadores, um convite: rejeite este modelo, boicote, proteste! Porque, afinal, eles justificam o que passam na TV dizendo que é o que somos, o que queremos. Então precisamos dizer que isso é passado, que não somos mais assim. Enquanto sociedade, estamos em transformação, é verdade, e sempre estaremos, por isso não podemos ficar presos no tempo. Reforçar modelos ultrapassados e preconceituosos, que não mais condizem com a realidade, é no mínimo desrespeitoso e nada inteligente, não acha?

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