Ato do 15 de Março em Campinas-SP. Foto: Lucas Sampaio

Foto: Lucas Sampaio

Houve um tempo em que milhares de pessoas foram às ruas protestar. Vestidos com camisas da seleção futebolesca, pediam o fim da corrupção e o impeachment da presidente da República.

Boa parte deles não sabia, mas o que seus líderes queriam, na verdade, era enterrar de vez qualquer esperança pelas reformas democráticas que poderiam mudar as bases do sistema para promover uma sociedade menos injusta e desigual.

Um retrocesso, que, infelizmente, não conseguiam ver, pois desconheciam ou simplesmente negavam a história de seu povo, de seu país.

Um país que havia sido construído às custas da escravidão de negros, da matança de índios, da devastação de matas e da superexploração dos trabalhadores;

Um país historicamente dominado por poucos com muito, detentores de instrumentos poderosos de alienação e persuasão e que não tinham limites para manter seus altos lucros;

Um país de trabalhadores, cuja maioria não tinha consciência de classe, repetia o discurso do patrão contra si mesmo e os seus pares;

Um país de sul-americanos que invejavam e sonhavam com o estilo de vida norte-americano; não percebiam que eles só queriam que fossem o seu quintal;

Um país de maioria de mulheres e negros, que preferiam eleger homens brancos como seus representantes;

Um país, em que pessoas foram às ruas, vestindo as cores da bandeira nacional, para reclamar a deposição de uma presidente, eleita pelo povo, pelas Forças Armadas;

Um país que há apenas 50 anos foi vítima de um golpe que promoveu os horrores impostos pela ditadura do capital, que usou as mesmas Forças Armadas para fazer valer seus interesses às custas de censura, repressão, exílio, tortura, miséria e mortes;

Um país em que pessoas foram às ruas protestar contra a corrupção, sem saber que estavam ali a representar os interesses de corruptores e corruptos que só queriam manter tudo exatamente como estava porque lhes favorecia;

Um país em que, passado esse momento, não haveria impeachment coisa nenhuma, porque não se justificava e nem mesmo os partidos de oposição o queriam, mas o governo estaria ainda mais à Direita e as reformas de base e mudanças sociais significativas teriam sido esquecidas de uma vez por todas.

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