Além do evidente uso inadequado de uma concessão pública de TV em claro desrespeito aos direitos humanos, o recente episódio envolvendo a apresentadora- âncora do Jornal do SBT, Rachel Sheherazade, me fez pensar sobre as condições de desigualdade profissional entre homens e mulheres jornalistas, evidenciadas pelo uso estereotipado e machista da imagem da mulher no telejornalismo brasileiro. Assim como Rachel, a quase totalidade das colegas que trabalham em telejornalismo no Brasil são jovens, brancas, magras e com cabelos lisos (ou alisados). E pior, mesmo nestas condições, normalmente se sentem vitoriosas pela “conquista profissional”.

Embora outras “qualidades”, como formação, experiência e ética possam chamar a atenção de qualquer “chefe”, sabemos que o que pesa mesmo na hora da escolha é o padrão visual, principalmente para as apresentadoras dos telejornais. São os apresentadores (homens e mulheres) que permanecem por mais tempo na tela, têm a missão de prender a atenção do telespectador, garantir boa audiência e, por consequência, atrair anunciantes. Só que o padrão visual é exigência somente para o sexo feminino.

Os jornalistas de TV podem ser mais velhos, com cabelos brancos, calvos e até mesmo “gordinhos”, já que eles, sim, precisam ter boa experiência e conteúdo, para transmitir confiança e credibilidade ao telespectador. Não que elas (jornalistas de TV) em geral não tenham esta qualificação também, algumas vezes têm até mais que eles, mas, como já disse, na maioria das vezes não é o que prevalece para a escolha nem para a permanência no cargo.

Visual apelativo

Há tempos venho observando as roupas das apresentadoras de telejornais, muitas vezes justas demais, brilhantes, saias curtas com pernas cruzadas e blusas decotadas, sem contar a maquiagem, por vezes também muito pesadas, evidenciando um modelo de sensualidade apelativo e em absoluto desrespeito com uma categoria profissional e com as telespectadoras. Já eles, os colegas, sempre de roupa social (terno e gravata) ou esportiva (calça jeans, camisa pólo e tênis), no caso dos que cobrem esportes.

Dessa maneira, temos um perfil predominante de profissional feminino no telejornalismo muito mais visual do que técnico, que possivelmente em muitos casos (que pode ou não ser o de Rachel) não reflete mesmo sobre o conteúdo ou prefere, conscientemente, ler um editorial recheado de preconceito social e racismo do que adotar uma posição mais crítica e colocar em risco sua posição na emissora. Se ela mesma pode pensar assim, não sei, mas pode ser também, já que muitos colegas (homens e mulheres) entram e saem da faculdade de Jornalismo sem assimilar conceitos básicos de Humanidade ou Ética Profissional, afinal, ao mercado empresarial isso não tem peso significativo, infelizmente. E pra piorar, muitas vezes acabam incorporando a linha editorial do veículo de comunicação no qual trabalham.

Emissoras são responsáveis

De qualquer jeito, penso que a grande responsabilidade, em todos os sentidos, é das emissoras de TV, seja pelo conteúdo editorial veiculado, seja pela desigualdade de condições de trabalho que desfavorece as mulheres jornalistas. E a desigualdade enfrentada pela mulher no Jornalismo (isso inclui todas as mídias e também as agências de comunicação e assessoria de imprensa) não se restringe ao “papel que ela tem de assumir em frente às câmeras”, mas em todos os sentidos.

Além da condição de desigualdade para ir ao mercado de trabalho, comum às mulheres de qualquer profissão, aliás, já que lhes cabe mais responsabilidades com filhos, casa e idosos, as jornalistas (embora maioria e, em média, com mais qualificação) recebem salários menores que os colegas e ocupam bem menos cargos de chefia (veja pesquisa recente). É, a gente precisa refletir mais sobre isso, colega, e contrapor esta realidade dia-a-dia, até que seja alterada, não aceitando, por exemplo, esse padrão visual feminino do telejornalismo, extremamente desigual, preconceituoso e machista.

E aos telespectadores, um convite: rejeite este modelo, boicote, proteste! Porque, afinal, eles justificam o que passam na TV dizendo que é o que somos, o que queremos. Então precisamos dizer que isso é passado, que não somos mais assim. Enquanto sociedade, estamos em transformação, é verdade, e sempre estaremos, por isso não podemos ficar presos no tempo. Reforçar modelos ultrapassados e preconceituosos, que não mais condizem com a realidade, é no mínimo desrespeitoso e nada inteligente, não acha?

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