Há suspeita de que crimes tenham sido praticados por policiais. Chacinas ocorreram na região do Ouro Verde, horas depois de um PM ter sido morto em uma suposta tentativa frustrada de assalto na mesma região

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A Polícia civil impediu o acesso da Imprensa aos Boletins de Ocorrência (BOs) de chacinas que provocaram a morte de 12 pessoas em bairros da região do Ouro Verde, em Campinas (SP), entre a noite de domingo (12) e a madrugada desta segunda (13/01). A negativa de acesso a estas informações públicas, como de costume, aos repórteres que fazem a cobertura policial na cidade, desperta ainda mais suspeitas contra a Polícia (corporação), já que policiais estão entre os suspeitos de autoria das chacinas.

Conforme noticiado pela Imprensa, as chacinas ocorreram horas depois de um policial militar ter sido morto em uma suposta tentativa de assalto a um posto de gasolina na mesma região. Segundo relatos de testemunhas, os assassinatos em grupo foram praticados por homens encapuzados, trajando “capas estilo militar”, que chegaram em dois carros. No bairro Vida Nova, os assassinos teriam pedido que algumas crianças entrassem para dentro de uma casa antes de fazerem os disparos contra um grupo de jovens que estavam na calçada.

Passagem pela Polícia

Entre as primeiras informações dadas pela Polícia em coletiva à Imprensa, na manhã desta terça (13), está a de que pelo menos a metade dos mortos já identificados nas chacinas tem passagem pela Polícia, evidenciando a tentativa de “justificar” as mortes (lembrando a máxima de Maluf, pai da Rota, de que “bandido bom é bandido morto”) e amenizar a indignação das pessoas em geral. Mas claro que a indignação da classe média e alta, em sua maioria absoluta, não vai além de um “nossa, que horror!”, já que morto da periferia (bandido ou não) não tem, nem de perto, o mesmo valor de morto de bairro nobre.

Como bem lembrou um colega jornalista, há poucos meses uma onda de assaltos em Barão Geraldo (distrito universitário, classes A e B) e um deles, em especial, que levou à morte uma professora, provocou uma série de reportagens na Imprensa e reforço do policiamento no local. Quais serão, então, as ações imediatas da Polícia comandada por Geraldo Alckmin (PSDB) na região onde foram assassinadas 12 pessoas em poucas horas? Certamente, bem diferentes, já que a região do Ouro Verde, uma das mais populosas da cidade, é também uma região periférica e pobre.

Ainda mais, depois que alguns ônibus foram incendiados no Vida Nova (um dos locais das chacinas), nesta terça (13), possivelmente como forma de protesto pelas execuções em grupo, exatamente como vêm ocorrendo na Região Metropolitana de São Paulo.. Um outro colega da Imprensa local chegou a sugerir à PM que não chegasse “quebrando tudo” para coibir as depredações de ônibus, ciente de que este é o comportamento costumeiro da Polícia nestes casos.

Policiais investigando policiais ?!?

O Comando da Polícia também disse, via Imprensa, que as investigações das chacinas seriam comandadas por 5 delegados e, como reforço, também estaria vindo de São Paulo uma equipe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), já que Campinas não tem uma Delegacia de Homicídios. Compreendo que a Polícia tem de fazer o papel dela, de investigar crimes, mas neste caso, em que há suspeita de envolvimento de policiais, como acreditar que esta investigação, conduzida por policiais, será minimamente isenta? Necessária e urgente a intervenção do Ministério Público e de órgãos de Direitos Humanos para que os fatos sejam apurados de forma independente, já que ao DHPP também caberia um R no final, pois costuma ser mais útil na proteção de pessoas ricas.

Volto agora a me debruçar ao fato da Polícia ter negado acesso da Imprensa aos BOs das chacinas, o que nos remete ao período da Ditadura Militar no Brasil, em que a Imprensa tradicional passou a ser mera divulgadora de releases (textos prontos) do governo (militar) e receitas de bolo. Um período em que direitos básicos, entre eles o direito à informação, foram negados, e a barbárie tomou as ruas, como bem sabemos. Concluo que, enquanto os militares (que carregam os mesmos princípios que tinham na época da “revolução”) estiverem nas ruas, executando função que cabe à uma guarda civil, os direitos humanos não serão respeitados plenamente.

Mais do que tudo, é preciso agir na causa.. são necessárias e urgentes também mudanças na Polícia e na política de segurança pública do País, mas, para isso, é preciso muita Coragem! Clamo por isso, ansiosamente.

Foto: Marcelo Camargo/ ABr (Audiência Pública, em janeiro de 2013, sobre violência na periferia de São Paulo)

Fotos de velório de vítimas das chacinas. Por Leandro Ferreira–  https://www.facebook.com/fotografoleandroferreira/media_set?set=a.671953989522327.1073741904.100001231963459&type=1

 

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