A repressão da Polícia Militar do estado de São Paulo aos manifestantes e a jornalistas que atuavam na cobertura dos atos de protesto contra o aumento do valor da passagem de ônibus na cidade de São Paulo, nesta semana, é prova concreta e inconteste do crescente poder e influência de forças políticas opressoras, atrasadas e com mentalidade tacanha, pra dizer o mínimo (alguns as chamam de conservadoras, mas acho um adjetivo muito leve para o caso). Há meses, talvez mais, observamos movimentos políticos com objetivo de nos levar de volta ao Brasil dos anos 1930, 1950, tendo como exemplo mais visível e marcante o “personagem” incorporado por Feliciano (pastor e deputado federal), entre outros que representam alguns grupos religiosos.

Apesar de demonstrar abertamente preconceitos e posições discriminatórias (algumas que podem ser consideradas crime, inclusive) que pensávamos já estarem ficando no passado recente desta sociedade “moderna” (?), como sua proposta pela “cura gay”, comentários racistas, machistas e homofóbicos, Feliciano se mantém ileso como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Em várias capitais e grandes cidades do País não faltaram protestos e manifestações públicas requerendo a destituição desta pessoa humana (pasmem!) do cargo. Os protestos foram totalmente pacíficos e não se teve notícia de intervenção da PM, porém, sem sucesso!

A diferença fundamental, agora, nestes protestos iniciados pela indignação com o aumento da tarifa de ônibus, é o dinheiro, claro, e muito, nada menos que o lucro milionário dos donos das empresas de ônibus que exploram os sistemas de trasportes na capital do estado e em todo o País. Nadam de braçada, fazem o que querem para manter seus altos lucros. E os usuários do sistema que se lixem, que se espremam dentro de ônibus, metrôs e trens superlotados, que levem horas nestas condições sub-humanas para chegar ao trabalho e voltar pra casa. Ainda expõem os trabalhadores do sistema a péssimas condições, sem o menor constrangimento. E todos têm de se conformar e aceitar sem reclamar, claro, afinal, “a vida é assim, difícil mesmo”.

Assim, aliaram-se o objetivo político destes grupos ditos “conservadores”, o que inclui reprimir os movimentos sociais e qualquer manifestação ou protesto que vá contra a “ordem e os bons costumes”, e o objetivo dos capitalistas em manter tudo como está para garantir alta lucratividade.

Novo cenário na RMSP

Ao mesmo tempo, temos na cidade de São Paulo e no ABC a predominância de prefeituras que passaram, no início deste ano, a ser administradas pelo Partido dos Trabalhadores (PT), nascido dos movimentos sociais na década de 1980, que também se mantém no governo federal há 10 anos e, embora mais recentemente tenha se afastado um pouco desta sua origem, conserva entre seus pares vozes mais críticas e com boa influência, que se mantêm ligadas aos movimentos sociais. Desse modo, a possibilidade destes movimentos sociais serem “ouvidos” por estes governos era maior neste momento.

Em outras capitais também estavam ocorrendo protestos… “se a moda pega”, imagine a proporção a que isso poderia chegar. Conclusão, eles (os capitalistas e os políticos conservadores e oportunistas que os representam) precisavam “abortar” o Movimento antes que tomasse força e conseguisse sensibilizar os prefeitos e a sociedade para algo muito maior que os R$ 0,20 acrescidos ao valor da tarifa de ônibus. E a cidade de São Paulo, a mais importante e influente do País, deveria servir de exemplo.

Erro estratégico

Talvez, o que estas forças opressoras não contavam era que o que chamam de “despreparo de policiais militares”, atingindo violentamente manifestantes, jornalistas e até cidadãos comuns que passavam pelos locais, chegaria a tal ponto de chamar a atenção da sociedade para a realidade, a verdade, que cotidianamente faz calar o trabalhador e a trabalhadora brasileiros, embevecidos pelo enredo da novela das oito misturado propositalmente ao do noticiário televisivo. A classe média “politicamente correta” também não aceitou tal postura, afinal, conhece a história e sabe ao que levou a opressão por meio da repressão policial na Ditadura nos anos de 1960-70.

É claro que a barbárie generalizada foi o erro estratégico, mas a faísca que talvez faltasse foi atingir e prender jornalistas (profissionais a quem a sociedade delega o poder de buscar e lhes trazer a informação) e, detalhe, todo tipo deles, desde o free lancer ao funcionário da grande mídia (burguesa). Pronto, a bomba fora acionada. Nas redes sociais digitais, milhões de comentários criticando a ação da PM, alguns com mais profundidade.. Órgãos nacionais e internacionais ligados a entidades de classe e de direitos humanos começam a se manifestar em apoio aos protestos no Brasil.

Será que agora, somente agora (embora não tarde), a sociedade de modo geral vai conseguir enxergar este movimento opressor e preconceituoso, disposto a impor o retrocesso histórico e cultural neste País a qualquer custo? Será que vamos parar para refletir com profundidade sobre quem são estes grupos e o que representam? Espero que sim.

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