“… a eleição do presidente Lula, em 2002, inaugurou um paradoxo: o líder histórico do PT conquistou o poder institucional, mas o aparato cultural e de comunicação da sociedade permaneceu hegemonizado por seus adversários.”, diz Ricardo Amaral, jornalista com 36 anos de profissão e autor do livro ‘A vida quer é coragem. A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil’. Crédito foto: Marina Baldoni

Colega, tenho a honra de publicar no Blog da Mi uma entrevista exclusiva com o jornalista Ricardo Batista Amaral, que já soma nada menos que 36 anos de profissão, com experiências das mais variadas, desde veículos de comunicação da grande imprensa nacional, como Folha, Estadão, Jornal do Brasil e Valor Econômico, e internacional (Agência Reuters), passando pela imprensa sindical e assessoria de imprensa. E foi como integrante da equipe de assessoria de comunicação e imprensa da Casa Civil (entre 2009 e 2010) e, depois, da campanha de Dilma à presidência da República, em 2010, que ele obteve os primeiros subsídios para o livro-reportagem ‘A vida quer é coragem. A trajetória de Dilma Rousseff, a primeira presidenta do Brasil’ (Editora Sextante).

Lançado em dezembro de 2011, o livro vem sendo divulgado pelo autor nas principais cidades do país, com presenças de personalidades de destaque do jornalismo e da política nacionais. A publicação já conta também com alguns leitores ilustres, como Fidel Castro, o ex-presidente de Portugal, Mario Soares, e o líder do Timor Leste, Ramos Horta. Quando soube do livro sobre Dilma e que tinha sido escrito por um jornalista já fiquei interessada, mais ainda depois de conhecer um pouco do autor, suas experiências diversas e grande vivência como repórter e assessor político.

A entrevista rendeu tanto que, em vez de editar/cortar, decidi dividir em duas, e não privar meus leitores de nenhuma vírgula. Assim, compartilho com você a primeira parte da entrevista, que traz um relato de experiências profissionais do autor, de como ele vê o trabalho do jornalista enquanto assessor de imprensa, suas opiniões sobre poder e influência da grande imprensa e o potencial de mudança desse contexto com o fenômeno das mídias sociais digitais. Na segunda parte (daqui a alguns dias), Ricardo Amaral dá detalhes sobre a concepção do livro, suas fontes e a história da foto da contra-capa, que retrata a jovem Dilma diante da Primeira Auditoria Militar (Rio), em 1970, depois de ter sido presa e submetida a 22 dias de tortura. Bem-vindo ou bem-vinda à leitura!

Conte um pouco sobre sua carreira como jornalista até chegar à assessoria da presidenta (então candidata). Você esperava, se preparou para isso?

Ricardo Amaral: Estou na profissão desde 1976. Comecei no jornalismo em Belo Horizonte (Jornal dos Bairros, imprensa sindical, O Globo, Veja). Por causa da cobertura da campanha de Tancredo  Neves, muitos de nós viemos parar em Brasília, onde cheguei em 1986, trabalhando para o JB. Cobri a Constituinte, os  planos econômicos, o impeachment, as grandes CPIs e cinco eleições presidenciais. Em 25 anos trabalhei novamente no Globo e Veja, na Folha de S, Paulo e IstoÉ-Senhor, fui colunista no Estadão, Época e Valor Econômico, além de repórter sênior na Agência Reuters e comentarista convidado na Globonews e rede CNT.

Tive duas experiências de governo nesse período: em 1999, trabalhei na assessoria de José Serra no Ministério da Saúde; em 2003 e 2004, fui assessor no ministro Luiz Dulci, no Palácio do Planalto, primeiro governo Lula. No segundo semestre de 2009, decidi deixar de vez as redações e abrir uma consultoria de comunicação. Foi quando recebi um convite para trabalhar com a ministra Dilma Rousseff, que estava se preparando para disputar as eleições.

Trabalhei na assessoria da Casa Civil, sob a coordenação de Oswaldo Buarim,  de dezembro de 2009 a março de 2010 e, em seguida, na campanha presidencial, na equipe de Helena Chagas (um ano no total). Meu trabalho sempre foi mais voltado para dentro: análises de mídia, levantamento de dados, avaliações, preparação de textos e subsídios para a candidata e para os coordenadores da campanha. Meu contato com veículos e jornalistas foi pontual, apoiando a equipe de Helena, responsável pela relação com a imprensa.

Em sua opinião, quais as qualidades indispensáveis a um jornalista-assessor político/ governamental para que tenha sucesso?

R.A.: A experiência ensina que o sucesso  pertence ao assessorado, não ao assessor. Depois de passar pelos dois lados do balcão, acredito que a relação entre assessor e repórter deve se basear na confiança mútua, que é testada todos os dias. O repórter não  vai confiar no assessor que mente e este terá receio de ampliar as informações para um repórter que as trata de maneira distorcida (sem falar na questão do respeito ao off the records). Num cenário de disputa política, como são as campanhas eleitorais, esta relação pode ser estressante.

É preciso entender os limites de cada parte (o compromisso do assessor com o candidato e a subordinação do repórter à linha editorial e política e de seu veículo) para pode explorar melhor as possibilidades. O trabalho do assessor tem melhores resultados quando ele consegue transmitir informações corretas e responder com objetividade às agendas negativas (isso é fundamental para conter a proliferação de notícias erradas). A relação é excelente  quando assessor e repórter dialogam sobre a conjuntura de maneira ampla, quando um consegue aprender com a experiência do outro.

Como era o seu relacionamento com a Imprensa, durante a campanha e agora?

R.A.: A imprensa brasileira sempre teve um papel destacado na vida política do país, mas a  eleição do presidente Lula, em 2002, inaugurou um paradoxo: o líder histórico do PT conquistou o poder institucional, mas o aparato cultural e de comunicação da sociedade permaneceu hegemonizado por seus adversários. Este descompasso persiste até hoje e foi radicalizado em vários momentos da disputa  política, fazendo mesmo parecer que governo e imprensa seriam forças antípodas, substituindo os partidos institucionais.

Teorias à parte, é fato que os grandes jornais e revistas não competem mais entre si pela atenção do público: Globo, Folha, Estadão, Época e Veja detém parcelas estáveis do mercado e não se esforçam para disputar espaço alheio, como era no meu tempo de jovem repórter. Isso favoreceu uma acomodação na forma de hierarquizar o noticiário e na linha editorial dos grandes veículos, que alguns chamam, talvez com exagero, de “pensamento único”. Rádio e TV, com algumas exceções, tendem a meramente reproduzir o que os grandes impressos publicam.

Em sua opinião, qual a importância da imprensa alternativa, especialmente a via Web, nos dias de hoje?

R.A.: O contraponto natural e necessário a este quadro acabou se estabelecendo por meio da internet e das redes sociais. É neste espaço que ocorre o mais vivo debate de ideias e se expressa a disputa política mais qualificada nos dias atuais.  No livro, além de analisar algumas notícias que tiveram impacto sobre o processo eleitoral, dou algumas indicações da presença da web na disputa, fazendo o contraponto à mídia tradicional, promovendo o debate, o proselitismo e, infelizmente, servindo também como veículo de infâmias. Há muito o que aprender com a experiência da rede na última eleição presidencial: isso seria tema para um outro livro. Há pessoas muito qualificadas para enfrentar esse desafio.

Quando e por que você decidiu escrever esse livro? Como a presidenta Dilma reagiu à ideia?

R.A.: O projeto do livro nasceu logo depois das eleições. Achei que era importante fazer um relato jornalístico da eleição da primeira presidenta num país de tradições machistas. Não queria fazer apenas um relato da campanha – o que é habitual em outros países mas não no Brasil (continua…)

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