“Queremos propor a reflexão de práticas que foram se naturalizando no jornalismo, mas que são altamente discriminatórias, como o padrão de beleza imposto às profissionais de televisão. Enquanto aos homens o tempo pode ser sinônimo de experiência, às mulheres pode ser sinônimo de demissão”_ Bia Barbosa (foto)

“Eleger uma mulher para a presidência do nosso Sindicato é também deixar de silenciar sobre este estado de coisas, é colocar um holofote sobre esses problemas e parar de relegá-los ao segundo ou terceiro plano”, diz a jornalista Bia Barbosa, sobre as dificuldades enfrentadas pelas jornalistas brasileiras no mercado de trabalho, como salários e condições desiguais, assédio sexual, entre outras manifestações do machismo, que ainda persiste também no meio jornalístico e sindical.

Na primeira década do milênio, as jornalistas passaram a ser maioria no mercado de trabalho paulista. Em 2009, elas já ocupavam 54,2% do total de 13.848 vagas de jornalistas com carteira assinada no estado, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, divulgados pelo jornal Unidade, publicado pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo (edição 336, de março de 2011). A publicação revelou, ainda, que a representação das mulheres no quadro de associados ao Sindicato (34%) não era equivalente.

Entre os dias 27 e 29 de Março, os jornalistas associados irão às urnas eleger a nova diretoria do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo para os próximos três anos. Bia Barbosa é candidata a presidente ou presidenta da entidade pela chapa 2. Ela foi escolhida como personagem para este especial do Blog da MI para o Dia Internacional da Mulher porque, além de ter um perfil profissional muito interessante e diferenciado, focado em Direitos Humanos, tem boas chances de ser a primeira mulher eleita para presidir o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, criado em 1937. Confira a entrevista, a seguir.

Fale um pouco sobre a jornalista Bia Barbosa. 

Bia Barbosa: Eu nasci no interior e vim morar em São Paulo para estudar jornalismo. Me formei no final dos anos 90 na Escola de Comunicações e Artes na USP e achei que deveria aproveitar o trabalho de conclusão de curso para começar a delinear que jornalista gostaria de ser. Fui então para Angola, fazer uma grande reportagem sobre a guerra civil, que ainda assolava o país. Logo que voltei comecei a trabalhar na grande imprensa. Fiquei dois anos na Editora Abril, antes de uma temporada de estudos na França. Lá, tive a oportunidade de trabalhar na Radio France Internacional e colaborar com vários veículos brasileiros, enviando reportagens sobre a Europa. Daquela época vem outro momento marcante para mim. Acompanhando uma missão da Unesco, fui ao Iraque meses antes da eclosão da guerra de 2002, que derrubou o regime de Saddam Hussein.

De volta ao Brasil, assumi a editoria de Direitos Humanos da Agência Carta Maior, com a qual colaboro até hoje. Os anos na Carta Maior foram fundamentais para ter a certeza de que era essa pauta que queria perseguir pra sempre. Para a agência cobri vários Fóruns Sociais Mundiais e acontecimentos como o julgamento e absolvição do coronel Ubiratan, que havia comandado o massacre do Carandiru. Foi nesta época também, dando continuidade a um debate no qual havia me envolvido durante a universidade, que ao lado de outros comunicadores fundamos o Intervozes, um coletivo que defende o direito à comunicação e luta pela democratização da mídia.

O que você faz hoje, em que trabalha?

Bia: Nos últimos anos tenho trabalhado diretamente com a questão da democratização da mídia e a formulação de políticas públicas de comunicação, de forma militante no Intervozes. Não deixei, no entanto, de escrever sobre direitos humanos. No ano passado, tive o privilégio de passar um mês na sede da AlJazeera, em Doha, conhecendo de perto o trabalho de uma das maiores redes de jornalismo do mundo. Atualmente faço mestrado em políticas públicas e assessoro a comunicação do mandato do deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP).

Fale sobre sua experiência no Intervozes e sobre a defesa da democratização dos meios de comunicação. Qual o impacto disso na atividade do jornalista? 

Bia: O Intervozes é um coletivo fundado em 2003 e que tem contribuído para pautar junto à população a importância da pluralidade e da diversidade nos meios de comunicação, ou seja, o quão fundamental é, para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, que todos possam exercer sua liberdade de expressão, e não apenas aqueles que detêm o controle dos meios de comunicação de massa. Dentro desta grande bandeira, defendemos o fortalecimento da mídia pública, o estímulo às rádios comunitárias, regras democráticas e transparentes para as concessões de rádio e TV, fim das concessões para políticos, entre tantos outros pontos. E acreditamos que uma mídia mais plural não apenas dará maior liberdade para o exercício profissional do jornalismo como também gerará mais postos de trabalho. Afinal, num mercado concentrado como o que temos hoje, o jornalista trabalha para um veículo e o que ele produz é comercializado por vários, sem que ganhe nada por isso.

Há quanto tempo você integra o coletivo Sindicato é Pra Lutar (chapa 2)? Fale sobre este grupo e a sobre sua participação no Sindicato.

Bia: Acompanho o Sindicato desde a época em que estava na universidade e me sindicalizei logo que tirei o MTb. Mas foi só depois que voltei pro Brasil, em 2004, que passei a participar de forma constante da vida sindical. E quem me fez este convite e mostrou a importância de, enquanto jornalista, também estar organizada na minha entidade de classe, foi o companheiro Pedro Pomar, meu colega de Chapa 2 desde aquela época. Há oito anos participo do coletivo Sindicato é Pra Lutar! porque foi neste espaço que encontrei jornalistas realmente dispostos a mudar a prática política da nossa entidade, propondo à direção do sindicato uma postura combativa, agregadora, presente na vida da categoria e disposta a representar o conjunto dos jornalistas de São Paulo, trazendo de volta pra nossa entidade a significativa parcela dos nossos colegas que, por diferentes razões deixaram de acreditar na importância da organização sindical e estão afastados desta luta. Felizmente, pelos últimos processos eleitorais, sabemos que esta visão está crescendo em meio aos jornalistas. E acreditamos que chegou hora de virar este jogo definitivamente.

Sabemos que até hoje nenhuma mulher foi eleita como presidente do Sindicato dos Jornalistas de SP. Como se sente com a escolha de seu nome para presidir a entidade (pela chapa 2) nesta eleição? Em sua opinião, quais os principais problemas enfrentados pelas jornalistas hoje no mercado de trabalho de SP?

Bia: Fico honrada por ter sido apontada pelos meus colegas como quem encabeçará a nossa chapa. É um reconhecimento das posições e posturas que temos construído juntos e da urgência em renovarmos em todos os sentidos a direção da nossa entidade. Mas propor o nome de uma jornalista para a presidência do Sindicato é também uma sinalização muito clara de que é preciso garantir um outro lugar para as mulheres em nossa categoria.

Hoje, já somos maioria no mercado de trabalho, seja nas redações, nas assessorias ou como freelancers. Mas continuamos recebendo menos do que nossos colegas jornalistas, enfrentando mais obstáculos para subir na carreira profissional, carecendo de direitos básicos garantidos às mulheres em outras áreas (creche; licença maternidade de seis meses; licença compartilhada entre homens e mulheres; respeito à jornada de trabalho, essencial para quem é obrigada a fazer jornada dupla ou tripla!), folga aos finais de semana, adicional noturno, etc.

Ao mesmo tempo, sofrendo mais as pressões da chefia, seja via assédio moral ou algo mais cruel, fruto do machismo em nossa sociedade: o assédio sexual. Sem deixar de reconhecer o trabalho das mulheres que participaram de todas as gestões do Sindicato, acredito que eleger uma mulher para a presidência do nosso Sindicato é também deixar de silenciar sobre este estado de coisas, é colocar um holofote sobre esses problemas e parar de relegá-los ao segundo ou terceiro plano. É, por fim, um meio de combater na prática o machismo que existe no próprio sindicalismo e do qual sofrem tantas companheiras que atuam nas organizações representativas do mundo do trabalho.

Naturalmente, as propostas da chapa 2 (Renovar para Mudar. Sindicato é Pra Lutar!) são amplas e envolvem toda a categoria, mas como hoje é Dia Internacional da Mulher, peço que apresente aqui algumas propostas dirigidas às mulheres jornalistas.

Bia: Uma parte das propostas é, naturalmente, o combate firme e persistente aos problemas relatados acima. Chega de fingir que o assédio moral não se tornou prática nos locais de trabalho; chega de lidar com casos de assédio sexual com “notas de repúdio”. Precisamos garantir que o Departamento Jurídico do Sindicato não vacile diante de casos como estes. Da mesma forma, nossa entidade representativa precisa ser dura diante do não cumprimento de cláusulas presentes nas convenções coletivas, como berçário, auxílio creche e a licença maternidade – esta última devendo ser ampliada para seis meses.

Mas, como não queremos seguir reproduzindo os padrões historicamente construídos da divisão sexual do trabalho, queremos lutar também pela licença compartilhada, para que não caiba apenas à mulher a tarefa acompanhar os primeiros meses de vida da criança. Este é um direito e um dever também dos pais, como afirma a Convenção 156 da OIT, sobre o compartilhamento das responsabilidades familiares, que lutamos para ver ratificada pelo Brasil. É preciso ainda olhar com atenção para questões de saúde específicas das mulheres e para a violência contra a mulher, da qual as jornalistas não estão distantes. Por fim, queremos propor a reflexão de práticas que foram se naturalizando no jornalismo, mas que são altamente discriminatórias, como o padrão de beleza imposto às profissionais de televisão.

Enquanto aos homens o tempo pode ser sinônimo de experiência, às mulheres pode ser sinônimo de demissão. Às mulheres negras, o machismo se soma ao racismo e o preconceito é ainda mais profundo. Todas essas são pautas para o Coletivo da Mulher Jornalista, que precisa funcionar de verdade, para que, por exemplo, o 8 de Março não seja tratado pela nossa entidade como um banner a ser colocado no alto do site. Sabemos que a opressão é enorme, histórica e, infelizmente, não é exclusiva da realidade brasileira. E só uma categoria organizada e um sindicato que olhe para essas questões podem viabilizar transformações concretas.

Uma pesquisa internacional, publicada a cada cinco anos, sobre a representação das mulheres na imprensa de todo o mundo tem revelado, por exemplo, que no jornalismo nós mulheres ainda somos minoria nas reportagens sobre política e economia – e maioria na cobertura sobre questões sociais e nas previsões meteorológicas! Mostrar este lado da profissão para a categoria, o da imprensa como, muitas vezes, parte responsável pela reafirmação de preconceitos e discriminações, e reverter este quadro faz parte das lutas que a Chapa 2 quer levar adiante.

E é por isso que tantas mulheres estão e apoiam a oposição, porque a luta sindical precisa atravessar a barreira das questões salariais e corporativas e enfrentar questões que vão além do mundo sindical tradicional. Questões que provoquem mudanças na forma como fazemos jornalismo, no que queremos para a imprensa brasileira e para seus profissionais: homens e mulheres. E esta eleição nos dá esta oportunidade, de mostrar que o sindicalismo vai além e precisa de mudanças, de renovação de verdade.

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