As frustrações e alegrias de ser jornalista

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Parte da capa de “Excluídos- o não jornal” (maio de 1996), publicação independente de um grupo de estudantes de Jornalismo da PUC-Campinas, do qual me orgulho de ter participado. Foto: Rossana Lana

Ser jornalista é..

trabalhar muito ganhando pouco ou até mesmo nada, uma vez que, hoje em dia, é comum empresas jornalísticas atrasarem o pagamento de salários e benefícios sob argumento de “dificuldades financeiras” (paga suas contas atrasadas e com juros, mas o carrão importado e a viagem internacional do patrão estão em cima!);

ter absoluta consciência da precarização do seu trabalho para manter os altos lucros do patrão, ser “o portador” da notícia, mas, não sendo “o dono da caneta”, se ver impedido de reportá-la (já que o interesse público só vai até onde não conflite com os interesses do empresariado);

vivenciar situações rotineiras de assédio moral e sexual, perder momentos importantes da vida de seus filhos e familiares sem demonstrar sentimentos (afinal, Jornalismo não é para fracos!);

ser pressionado/a diariamente (às vezes até ameaçado/a), por todos os lados, do patrão/ anunciante a algumas fontes de informação (já que todo mundo quer se dar bem, sair bem na fita e você, mero/a operário/a da imprensa, não pode atrapalhar!);

lidar, em cada matéria, com o conflito entre o que acredita, o que o patrão quer/espera (linha editorial) e o que o leitor/ telespectador/ ouvinte merece (já que um fato pode ter N interpretações);

sentir dor física e moral. Como a visão do patrão costuma prevalecer, caso não seja a mesma do colega a frustração aflora e, acompanhada de toda essa situação cotidiana, provoca estresse, depressão e outras doenças, podendo levar à morte;

Mas, ser jornalista também é..

Sentir a adrenalina da investigação, do furo, do poder de mostrar a coisa errada, desonesta;

Ter o prazer de colaborar (mesmo que só um pouquinho, como grãos de areia) com a conscientização das pessoas sobre valores humanos, justiça, cidadania, mostrar histórias que emocionam e que nos fazem pensar;

Ser persistente e convicto/a. Mesmo vivendo sua frustração cotidiana, encarar cada nova pauta como um desafio de ir mais a fundo, fazer melhor, convencer todo mundo de que a sua história merece a capa, a chamada principal;

Ficar feliz e orgulhoso/a em ver sua assinatura naquela matéria que as pessoas pararam pra ler/ ver/ ouvir e pensar sobre algo que lhes passaria despercebido ou que jamais teriam condições de saber por conta própria;

Sim, apesar de tudo, SER JORNALISTA ainda vale a pena!

#7deAbril  #DiaDaJornalista

Blogueir@s apontam necessidade de rede de apoio e financiamento

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Blogueiros e ativistas da região de Campinas expõem dificuldades e desafios

Participantes do 1º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de Campinas e Região apontaram a necessidade de criação de uma rede de apoio e financiamento, que viabilize a execução de suas atividades com o mínimo de tranquilidade e segurança. Além do patrocínio, essa rede incluiria apoio jurídico e a valorização dos conteúdos produzidos por esses comunicadores, que podem contribuir muito com os movimentos sociais de esquerda e a classe trabalhadora da Região Metropolitana de Campinas (RMC).

De fato, não falta gente interessada e comprometida nem mesmo espaço, já que os tradicionais sites de notícias da região são bem poucos e muitas vezes deixam a desejar em qualidade e representatividade da maioria da população, composta por trabalhador@s, mulheres e negr@s. Na pauta desses veículos de comunicação, via de regra os interesses do grande empresariado se sobrepõem aos da maioria e, muitas vezes, o que vemos são fatos distorcidos e desrespeito aos Direitos Humanos.

1 Encontro de Blogueiros Cps e Reg. 25.3.17 Veronique Hourcade (5)

Michele da Costa: Blog da Mi e Coletivo Jornalistas de Campinas e Região

O Encontro foi realizado dia 25 de março, pela Adunicamp (Associação dos Docentes da Unicamp) em parceria com o site Carta Campinas e o Barão de Itararé. Participei da Mesa da tarde, enquanto mediadora, blogueira e representante do Coletivo Jornalistas de Campinas e Região, por isso não pude deixar de falar sobre a precarização das condições de trabalho dos jornalistas, iniciada muito antes da “lei da terceirização”, que prefiro chamar de legalização da precarização.

Além disso, com as demissões em massa nos veículos de comunicação tradicionais nos últimos anos, a internet tem se tornado um novo campo natural para o trabalho de muitos jornalistas, que investem em sites e blogs de informação e opinião, mas quase sempre esbarram na dificuldade em obter patrocinadores e/ou anunciantes. Se tem posicionamento político de esquerda, então, fica ainda mais difícil. Daí a oportunidade de investimento para movimentos sociais, entidades e pessoas que desejam a ampliação de uma rede de informação qualificada, classista e, no caso de Campinas, voltada aos acontecimentos regionais, o que seria uma grande e boa novidade.

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Paulo San Martin (Adunicamp) fala sobre proposta de central de compartilhamento

Nesse contexto, a Adunicamp apresentou a proposta de criação de uma rede de compartilhamento de conteúdo para blogueir@s, em desenvolvimento por meio de parceria com professores do Instituto de Computação da Unicamp. Os participantes demonstraram interesse e fizeram sugestões de possíveis ajustes.

Entre os participantes da Mesa, Elias Aredes (Bola com Gravata e Só Derbi), Lucas Santana e Paola (Bonde Mídia), Júnior (Socializando Saberes), José (Galoá Journal), Gilberto Gonçalves (Jornal Alto Taquaral) e Sérgio (Advogados Independentes Campinas). Rodrigo Grassi, do Botando Pilha, também contribuiu com uma exposição inicial. Na parte da manhã, o evento contou com um bom público, que compareceu para prestigiar os convidados Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Aparecido Araújo Lima (Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé) e Glauco Cortez (Carta Campinas).

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Mesa da manhã (da esquerda para a direita): Glauco Cortez, Eduardo Guimarães, Paulo Henrique Amorim e Aparecido Araújo Lima

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Plateia acompanha apresentação de convidados durante a manhã

Fotos: Véronique Hourcade

Repressão a rádios comunitárias à vista!

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Jerry de Oliveira, durante Ato em Campinas-SP (foto: Roberto Claro)

Por Jerry De Oliveira

 

Mais uma vez, eu me dirijo às rádios comunitárias e aos militantes da luta pela democratização da comunicação. O governo golpista de Michel Temer já mostrou para que veio em relação a aposentadoria, propondo um regresso aos anos 30. Também já mostrou a que veio em relação a retirada de direitos propondo a negociação entre a raposa e a galinha (trabalhador x empregado) nas negociações salariais.

Hoje pela manhã, acordamos estarrecidos com a medida provisória 744/2016, que extingue o Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), demitindo sumariamente o presidente legalmente empossado e colocando em seu lugar um interventor, relembrando os anos de chumbo da ditadura. E o pior, tentando acabar com o conceito de comunicação pública (ainda em gestação) dos representantes da sociedade civil, eleitos democraticamente por nós.

Uma ditadura se impõe nas armas, com a determinação do governo Temer e Geraldo Alckmin de colocar suas tropas nas ruas para impedir a manifestação de seguimentos contrários a seu regime, que convocou um ato democrático para este domingo na Avenida Paulista. A outra forma de manter uma ditadura é calar uma imprensa livre, que neste momento é representada pelos trabalhadores da EBC, pela mídia alternativa das redes sociais e por nós das rádios comunitárias e livres. Felizmente após toda a repressão sofrida por nós durante 20 anos e o atrelamento da mídia privada ao grande capital, podemos dizer que este golpe também foi orquestrado por eles (mídia privada) e que também não merece nenhuma trégua por parte das forças populares anti golpe.

Temos recebidos informações quase que diárias de valorosos aliados de nossa luta que atuam dentro da estrutura do Ministério das Comunicações (que antes chamávamos de sub sede da ABERT, e que hoje se transformou efetivamente na sede do monopólio da comunicação em nosso país), que esta sendo deflagrada a operação extermínio, com a abertura de milhares de processos de apuração de infração contra nossas emissoras comunitárias, o fim do Plano Nacional de Outorgas de Rádios comunitárias, um decreto de implementação do sistema americano de rádio digital (IBOC) e uma proposta de Emenda Constitucional transferindo toda a regulação da radiodifusão para a incompetente e criminalizadora agência reguladora ANATEL, cuja missão política é favorecer os desmandos do monopólio e reprimir violentamente as comunidades que valorizam a cultura e ousam romper com o modelo de difusão de valores da classe dominante, que somos nós, as rádios livres e comunitárias.

Temos à frente desse Ministério um verdadeiro lacaio dos interesses privados, que no ano de 2009, quando ainda era prefeito de São Paulo, realizou uma operação midiática e criminosa ao destruir 8 toneladas de equipamentos apreendidos pela ANATEL e nos acusou, sem nenhuma prova material, de relação com o crime organizado.

A atual secretaria de comunicação eletrônica é suspeita para dirigir a respectiva Secretaria por ter sido assessora e consultora na área para um dos maiores conglomerados de mídia do país (SBT). Apesar de todas as denúncias encaminhadas pelas organizações sociais da luta pela democratização da comunicação às autoridades do Ministério Público Federal, sequer abriram processo para apurar sua relação promíscua com o monopólio, caracterizando de forma nua e crua que todo o sistema está podre e que necessita de reformas urgentes.

Também é importante ressaltar que este governo golpista tem se utilizado de discursos de metas fiscais para cortes de gastos, acabando com importantes secretarias inclusivas, como a Seppir, Secretaria de Mulheres e tantas outras, como desculpa para cortes no Orçamento, mas esconde o aumento de recursos para a fiscalização das rádios livres e comunitárias pela ANATEL, com o aluguel de veículos de luxo para a repressão, inclusive.

Para nós, de rádios comunitárias, torna-se necessário retomar a rebeldia dos anos 90, recolocar mais emissoras no ar contra esta onda reacionária e anti-democrática que assola nosso país, ocupando o dial, aumentando nossas potências, não reconhecendo o papel repressor da Anatel em nossas emissoras e garantindo espaço para que todos possam dialogar e dizer pra sociedade que temos o nosso bem mais precioso. A liberdade.

Precisamos nos organizar nacionalmente para se contrapor a este extermínio e necessitamos do engajamento das rádios verdadeiramente democráticas e comprometidas com a Democracia para a derrubada deste governo golpista. Torna-se necessária a realização de uma assembléia nacional e popular dos movimentos sociais e da luta pela democratização da comunicação para construirmos um verdadeiro movimento nacional de comunicação contra hegemônico e contra o golpe fascista.

Jerry De Oliveira é militante do Movimento de Rádios Comunitárias

Nacionalismo, jingles chiclete e o grande golpe contra os trabalhadores

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Rovena Rosa. Agência Brasil

Jovem torcedor (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Enquanto os olhos e corações dos brasileiros naturalmente se voltam para os Jogos Olímpicos do Rio, embalados por narrações emotivas e jingles chiclete de grandes patrocinadores, as articulações do setor empresarial e seus aliados políticos para a redução de direitos sociais e dos trabalhadores avançam sorrateiramente no Congresso Nacional. Até esse recente episódio da novela do Impedimento da presidenta Dilma (mesmo sem crime de responsabilidade), com o já mega esperado prosseguimento pela votação, se sobrepõe no cenário nacional ao assalto pretendido contra a maioria esmagadora da população, a classe trabalhadora, esse sim, o grande golpe em curso programático e silencioso no nosso País nos últimos anos.

Quando aparece, é como algo natural, um pequeno sacrifício que todo cidadão precisa fazer para tirar o país da crise. Mas não é coincidência que isso apareça com mais força nesse momento. O nacionalismo exacerbado sempre acompanha processos históricos de disputa pelo poder. Se pode vir acompanhado de uma grande festa e heróis nacionais, melhor ainda! A torcida que ocupa hoje estádios e arenas dos jogos olímpicos veste a mesma camisa verde e amarela usada pelos grupos a favor do afastamento de Dilma e “contra a corrupção” nas ruas das grandes cidades e que agora se calam vergonhosamente diante dessa agenda de retrocessos.

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Ato contra Dilma em 2013 (Foto: Lucas Sampaio)

São essas cores também, assim como o azul e o branco, que estampam o lema “Ordem e Progresso” da Bandeira Nacional na propaganda do governo interino de Michel Temer. Ele, que é porta bandeira, não da defesa da soberania nacional, como caberia a um chefe de Estado, mas dos interesses do grande capital, principalmente o internacional. São várias as propostas de alteração de leis que preveem a retirada de direitos sociais e dos trabalhadores, mas os maiores destaques da recente agenda empresarial no Congresso são os PLs 4193/2012 e 4962/2016, como bem colocou Marilane Teixeira, em artigo veiculado no início de agosto no site do Sindicato dos Químicos de São Paulo.

Pelegos de plantão

Ambos Projetos querem a prevalência do “negociado sobre o legislado” sobre itens previstos na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), ou seja, se em acordo coletivo com o empregador a categoria de trabalhadores aceitar reduzir alguns desses direitos, como parcelamento de férias, redução de adicionais e horas extras, essa negociação prevalecerá sobre a legislação. Daí tem gente que vai dizer, mas será que essa negociação também poderia favorecer os trabalhadores? Bem, se a ideia fosse favorecer trabalhador nada precisaria ser alterado e nem seriam os patrões os articuladores disso, já que a função dos acordos coletivos são unicamente ampliar direitos, nunca suprimir.

Tanto que se, por vezes, um acordo celebrado rebaixa um item previsto na legislação, é certo que rende indenização via Justiça trabalhista. O curioso é que o discurso do interino Temer e sua trupe no Congresso, pra tentar justificar essa barbárie, além da “necessidade de flexibilizar direitos para promover a geração de empregos”, destaca a intenção de “dar mais poder aos sindicatos”! Faz-me rir! Sim, para sindicatos com dirigentes pelegos seria um prato cheio.

A Força Sindical, por exemplo, já disse, nessa notícia de O Globo, que não irão se colocar contra a reforma (trabalhista), “desde que a proposta seja pautada pelo fortalecimento da negociação coletiva”. Ele (João Carlos Gonçalves- Juruna) destacou que em outros países não existe uma CLT como no Brasil, apenas uma legislação básica. Mas, isso não impede uma boa relação entre capital e trabalho (…)”. Óbvio que a intenção é diametralmente oposta, na verdade querem reduzir o poder e representatividade dos sindicatos, enfraquecer as categorias e, por consequência, toda a classe trabalhadora.

Flexibilizar = precarizar

Na prática, quando dizem “flexibilizar”, leia-se reduzir, precarizar. Quanto à gerar empregos, é possível, mas precários e com salários rebaixados, haja vista o PL da Terceirização (4330) no Senado, já aprovado na Câmara Federal, que permite contratações de trabalhadores como pessoas jurídicas, mantendo a relação de trabalho, mas sem os direitos trabalhistas e ainda impondo o custeio de impostos empresariais. A categoria de jornalistas é um bom exemplo da imposição da terceirização e a precarização consequente, há anos, bem antes de se propor essa “legalização”, que veio justamente para tentar evitar as despesas dos empresários com indenizações obtidas via judicial.  

No fim das contas, as empresas querem se tornar mais competitivas e lucrativas, reduzindo o custo com mão-de-obra, ou seja, aumentar seu capital às custas do trabalhador, que passa a produzir mais por menos ($). O trabalhador só perde: renda, qualidade de vida e, a médio prazo, a saúde. Nesse artigo para a Revista do Brasil, o economista Marcio Pochmann adverte para outra consequência dessa agenda: “Com menor rendimento e maior flexibilidade contratual, os trabalhadores consomem menos ainda, fazendo contrair, em consequência, o consumo. E, por sua vez, a provocação da queda da demanda na economia como um todo, fazendo aumentar o desemprego da força de trabalho. Retrocesso em cima de retrocessos.”

Concluindo; nem mesmo a recuperação da economia estaria garantida com essa cruel lógica neoliberal. Então, com todo o respeito aos atletas brasileiros que cumpriram seu papel nessa Olimpíada, ganhando medalhas ou não, acho que o momento exige menos idolatria a uma bandeira e outros símbolos nacionalistas e mais reflexão e mobilização pela garantia de direitos e um projeto de País que contemple as necessidades de todas as pessoas.

 

A queda do diploma de jornalista e a Democratização da Mídia

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Objetivo da derrubada do Diploma foi enfraquecer, estrategicamente, a categoria de jornalistas. Inexistência de regras e fiscalização da mídia pune toda classe trabalhadora e minorias para manutenção de ‘status quo’

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Redação de veículo de comunicação

A defesa da liberdade de expressão é o argumento daqueles que defendem a inexigibilidade do diploma universitário de jornalista para o exercício da profissão no País, mas também dos que são contrários à regulação e/ou democratização da mídia, ao que costumeiramente chamam de “censura”. Coincidência? Nenhuma, já que as duas questões estão diretamente ligadas e são regidas pelo mesmo grupo político-econômico. Não à toa, é grande a participação de jornalistas entre militantes de movimentos pela democratização da mídia, mas infelizmente eles ainda representam muito, mas muito pouco mesmo da nossa categoria.

Creio que a maioria dos colegas simplesmente não tenha conhecimento sobre a proposta de democratização da mídia, seja por falta de interesse ou porque acabou incorporando a visão deturpada dos donos de veículos de comunicação. Inclusive já vi comentários de alguns disseminando a falsa ideia de tentativa de censura, que geraria crise financeira aos veículos de comunicação e, consequentemente, mais desemprego de jornalistas. Que boa parte da sociedade, movida pelo senso comum, absorva este conceito apresentado como “verdade” no noticiário dos donos das mídias, é compreensível, mas de jornalistas não podemos aceitar isso.

Isso porque, do jornalista, um profissional de comunicação social que deve ter compromisso com a verdade e a ética, que deve zelar pelo respeito aos direitos humanos, que é o responsável por levar informação ao restante da sociedade, se espera mais que o senso comum, no mínimo. Embora todas as categorias de trabalhadores sejam prejudicadas pela inexistência de uma mídia democrática em nosso País, a dos jornalistas e duplamente punida. E digo como.

Manutenção do status quo

Sem regras e fiscalização, os donos da mídia detêm monopólios que operam exclusivamente conforme seus interesses e dos setores que representam, dos quais fazem parte, direta ou indiretamente, grandes grupos empresariais nacionais e internacionais e políticos (alguns políticos são donos da mídia). E o que é que move o setor empresarial, senão o máximo lucro possível, mesmo que seja preciso massacrar a classe trabalhadora e desrespeitar as minorias (negros, mulheres, LGBTTs, etc.)? Assim, todo o conteúdo, principalmente o noticioso, é transmitido de forma a garantir estes interesses, a qualquer custo, e, mesmo utilizando uma concessão pública, muitas vezes contra o interesse público.

Qualquer ato ou ação contrária à manutenção deste status quo é manipulada, limada, reduzida a quase nada, a exemplo de greves de trabalhadores ou protestos de movimentos por moradia, sobre os quais sempre são destacadas as consequências imediatas, como o congestionamento no trânsito e a falta de serviços, mas nunca os motivos daqueles que buscam nada mais do que seus direitos. Direitos negados pelos patrões e pelo Estado.

Precarização, assédio moral e demissões

E o jornalista está no meio disso. Se discorda ou contesta esse tipo de conduta do veículo de comunicação ou da precarização das condições de trabalho a que é submetido, é assediado e, muitas vezes, acaba desempregado. Se a categoria é unida e representativa, pode ter força suficiente para combater isso por meio de sindicatos. Caso contrário, fica rendida. E é aí que entra a questão da inexigibilidade do diploma, em vigor desde 2009 por decisão do STF, embora seis anos depois a maioria dos postos de trabalho ainda sejam preenchidos por profissionais.

O fato dos donos dos veículos de comunicação terem a possibilidade de contratar qualquer pessoa para exercer funções de jornalista é uma arma engatilhada na cabeça dos jornalistas profissionais. Ou seja, o objetivo com a queda do diploma não foi contratar não jornalistas, mas sim enfraquecer ainda mais uma categoria de trabalhadores estratégica e vital para toda a sociedade. E os patrões vêm conseguindo isso.

Se a precarização das condições de trabalho, como a contratação sem registro em Carteira e o desrespeito a pisos salariais, já existiam antes de 2009, depois foi ampliada em larga escala com a “pejotização” (contratação do jornalista como se fosse empresário, sem direitos trabalhistas), a “estagização” (contratação de estudantes com obrigações e carga horária de profissionais) e as tão temidas demissões em massa.

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Com a previsibilidade deste quadro, logo após a decisão do STF sindicatos de jornalistas e a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) iniciaram uma campanha por uma Proposta de Emenda à Constituição Federal (PEC) para restabelecer a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Algumas PECs foram propostas por parlamentares e uma delas (a Nº 33/ 2009) foi aprovada no Senado. Agora, esta PEC deverá ser finalmente colocada em votação na Câmara dos Deputados nesta terça (7 de Abril de 2015), Dia do Jornalista: mais uma batalha a ser vencida! E não será fácil, nem esta batalha, nem as próximas, até que a PEC entre em vigor e que a Mídia nesse País seja, de fato, Democrática.

Um olhar do futuro sobre o 15 de Março

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Ato do 15 de Março em Campinas-SP. Foto: Lucas Sampaio

Foto: Lucas Sampaio

Houve um tempo em que milhares de pessoas foram às ruas protestar. Vestidos com camisas da seleção futebolesca, pediam o fim da corrupção e o impeachment da presidente da República.

Boa parte deles não sabia, mas o que seus líderes queriam, na verdade, era enterrar de vez qualquer esperança pelas reformas democráticas que poderiam mudar as bases do sistema para promover uma sociedade menos injusta e desigual.

Um retrocesso, que, infelizmente, não conseguiam ver, pois desconheciam ou simplesmente negavam a história de seu povo, de seu país.

Um país que havia sido construído às custas da escravidão de negros, da matança de índios, da devastação de matas e da superexploração dos trabalhadores;

Um país historicamente dominado por poucos com muito, detentores de instrumentos poderosos de alienação e persuasão e que não tinham limites para manter seus altos lucros;

Um país de trabalhadores, cuja maioria não tinha consciência de classe, repetia o discurso do patrão contra si mesmo e os seus pares;

Um país de sul-americanos que invejavam e sonhavam com o estilo de vida norte-americano; não percebiam que eles só queriam que fossem o seu quintal;

Um país de maioria de mulheres e negros, que preferiam eleger homens brancos como seus representantes;

Um país, em que pessoas foram às ruas, vestindo as cores da bandeira nacional, para reclamar a deposição de uma presidente, eleita pelo povo, pelas Forças Armadas;

Um país que há apenas 50 anos foi vítima de um golpe que promoveu os horrores impostos pela ditadura do capital, que usou as mesmas Forças Armadas para fazer valer seus interesses às custas de censura, repressão, exílio, tortura, miséria e mortes;

Um país em que pessoas foram às ruas protestar contra a corrupção, sem saber que estavam ali a representar os interesses de corruptores e corruptos que só queriam manter tudo exatamente como estava porque lhes favorecia;

Um país em que, passado esse momento, não haveria impeachment coisa nenhuma, porque não se justificava e nem mesmo os partidos de oposição o queriam, mas o governo estaria ainda mais à Direita e as reformas de base e mudanças sociais significativas teriam sido esquecidas de uma vez por todas.

Debate sobre violência contra jornalistas expõe omissão de empresas de comunicação, da Polícia e do Estado

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Band TV figurou como vítima no episódio da morte do cinegrafista Santiago Andrade; policial autor do disparo da bala de borracha que cegou o repórter fotográfico Sérgio Silva ainda não foi identificado

Debate SPL SP 21.8 (5)

‘Tiro, porrada e bomba: violências contra o jornalismo e os jornalistas’ foi o tema do debate realizado pelo Coletivo de Jornalistas Sindicato É Pra Lutar!, dia 21/8

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, durante a cobertura de um protesto no Rio, em fevereiro deste ano e outros casos recentes foram relembrados no debate ‘Tiro, porrada e bomba: violências contra o jornalismo e jornalistas’, realizado na capital, quinta (21/8), pelo Coletivo de Jornalistas do estado de São Paulo Sindicato É Pra Lutar! (SPL). E que bom! Esses casos merecem ser lembrados porque não tenho dúvida de que nem todos os culpados foram responsabilizados, ao menos aos olhos da opinião pública, não mesmo.

 

Embora não seja ela quem acendeu e/ou atirou o explosivo que atingiu o cinegrafista Santiago Andrade, a Rede Bandeirantes de Televisão também pode ser responsabilizada pela morte dele, assim como de seu outro cinegrafista (Gelson Domingos da Silva), atingido durante tiroteio em favela do Rio, em outubro de 2011. Ambos pela falta de, ao menos, treinamento, equipamentos e condições de segurança adequados para o trabalho em coberturas jornalísticas de risco. Sem isso, esses colegas contaram apenas com a sorte, como muitos de nós contamos no nosso trabalho cotidiano!

 

E o que faz a Band? Aliada a todo o clã de emissoras de TV brasileiras que, em maioria, agem da mesma forma irresponsável e omissa com a segurança de seus profissionais de Jornalismo, atacou. Culpou os manifestantes, a Polícia e, principalmente, o governo, jogando pra ele toda a responsabilidade por não garantir a segurança dos jornalistas (mas não qualquer um, claro, dos seus da grande mídia) nos protestos e manifestações de rua.

 

Era o momento das entidades de classe botarem a boca no trombone, e algumas até o fizeram, mas evidente que suas manifestações não ocuparam espaço nem perto de significativo do noticiário da grande imprensa, que estampou como vítimas as emissoras de TV travestidas de ‘Imprensa imparcial a serviço da sociedade’.

 

Entidades se manifestam

 

“Santiago é mais uma vítima da irresponsabilidade das empresas jornalísticas, que se recusam a fornecer equipamentos de segurança, treinamento e estabelecer como regra primordial de segurança o impedimento do profissional trabalhar sozinho”, disse o presidente da ARFOC Brasil (Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos), Luiz Hermano, e o presidente da ARFOC Rio, Alberto Jacob Filho, em nota publicada e disponível no site da ARFOC Rio, dia 10 de fevereiro de 2014, dia em que Santiago morreu.

 

Segundo esta reportagem da EBC (veiculada no Último Segundo), quando Gelson Domingos foi atingido, usava um colete à prova de balas, mas o projétil ultrapassou a proteção. “Para a presidenta do sindicato (dos Jornalistas do Rio de Janeiro), Suzana Blass, a morte do cinegrafista foi uma tragédia anunciada, porque os coletes fornecidos pelas empresas de comunicação não resistem a tiros de fuzil”, informa a reportagem.

 

Nesta entrevista à RádioTube, Jacob Filho relata várias irregularidades cometidas pela Band Rio, como a terceirização de quase todos os profissionais, alguns contratados como radialistas (que têm pisos salarias mais baixos que os jornalistas), profissionais de imagem sendo usados também como motorista e iluminador da equipe. “Sem dúvida nenhuma, a BAND é responsável pelas mortes dos cinegrafistas”, afirma Jacob Filho à Rádio.

 

Policiais são maioria dos agressores

 

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Sérgio Silva, em foto divulgada em seu perfil no Facebook dia 28/6

Embora nos casos de Santiago e Gelson, o que os atingiu não tenha partido de policiais, a maioria das agressões deliberadas (com intenção) contra jornalistas nos protestos de 2013 partiu de forças de segurança (policiais militares e guardas municipais), 55 de 70, conforme pesquisa realizada e divulgada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

 

Durante o debate do SPL, vários outros episódios recentes de violência policial contra jornalistas foram lembrados, como o do repórter fotográfico da Futura Press, Sérgio Silva, e a repórter da TV Folha, Giuliana Vallone, feridos por balas de borracha em cobertura de protesto em São Paulo, em junho de 2013. Em decorrência disso, Sérgio Silva ficou cego de um olho, mas o responsável pela bala que o atingiu ainda não foi sequer identificado.

 

Democracia X Ditadura

 

Entre os debatedores (o tenente-coronel Adilson Paes de Souza e os jornalistas Bruno Paes Manso, Fausto Salvatori e Lúcia Rodrigues) a opinião é de que é possível, sim, identificar o policial que disparou o tiro (assim como qualquer outra agressão), já que todos os policiais que saem para uma operação são identificados e instruídos previamente e respondem a um comando. Lúcia entende que nem os policiais e nem a Polícia agem isoladamente, mas “obedecem a uma política de Estado, que visa a defesa do patrimônio e não das pessoas. Os manifestantes são vistos como inimigos, uma ideologia da ditadura militar”, disse ela.

Debatedores ouvem perguntam da plateia

Debatedores interagiram com a plateia

Como solução, Souza defendeu a desmilitarização da Polícia e, por enquanto, em casos de violência policial que o Ministério Público seja acionado, pois tem a obrigação constitucional de fiscalizar o trabalho da Polícia. Salvatori, do site de notícias http://ponte.org/, mencionou que o Brasil da democracia matou mais jornalistas do que a ditadura militar, segundo dados do Comitê de Proteção a Jornalistas e levantamento da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”, da Assembleia Legislativa de São Paulo: 29 profissionais foram assassinados em represália por seu trabalho, entre 1992 e 2013, contra 12 jornalistas, no exercício da profissão, mortos pelo regime militar entre 1964 e 1985.

 

Bruno Manso,  também do site Ponte, expôs a contradição que há em tempos de internet, mídia ninja e divulgação rápida dos fatos, que, se por um lado agrega o enriquecimento da informação vista por quem é parte da notícia, por outro expõe de forma solitária os comunicadores. “O trabalho do jornalista está bastante precário”, afirmou Manso. O debate foi mediado pelo jornalista Pedro Malavolta, que defendeu ações concretas e permanentes dos sindicatos em defesa da segurança dos profissionais e criticou ações sindicais de aproximação dos jornalistas à Polícia Militar, conforme observado recentemente no Rio Grande do Sul, segundo essa notícia do site Sul21.

* Com informações das jornalistas Luciana Mendonça e Cecília Figueiredo

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